Mapa dos Gols

Pesquisador do GPC, Nelson Oliveira, defende o seu TCC com nota máxima apresentando o seu “Mapa dos Gols”. O projeto usa recursos da fotografia e do jornalismo literário para tratar do futebol amador em Salvador. O trabalho cruza, pelo jogo, questões importantes da cidade: cultura, segurança, espaço urbano, futebol, lugar. Como afirma o autor:

“O projeto tem como objetivo traçar um panorama da prática do futebol amador na cidade de Salvador, a partir do mapeamento colaborativo de campos e equipes de futebol, bem como de histórias e imagens que ajudem a resgatar a memória dessa faceta do esporte soteropolitano.”

Confiram e divulguem o site e acompanhem o twitter.

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Everyware – seções 1 e 2

Everyware, Adam GreenfieldE se ao invés de estar alocada em alguns poucos dispositivos eletrônicos, a informação pudesse ser disposta em qualquer lugar, em qualquer objeto, a qualquer momento? Buscando uma aplicação tecnológica dessa maneira e de modo a facilitar nosso dia a dia, essa é a exploração empregada por Adam Greenfield em seu livro Everyware.

O livro é dividido em 7 seções, cada qual com uma abordagem específica. Nesta resenha, exploramos as duas primeiras seções, que tratam, respectivamente, da proposta central de Everyware e como esse paradigma, se pudermos tratar assim, diferencia-se de outras aspectos tecnológicos que nos já são familiares.

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Resenha do livro “Sentient City”, Parte 4

Sentient city: ubiquitous computing, architecture, and the future of urban space, 2011. Editor: Mark Shepard.

Resenha de Adelino Mont’Alverne

Esta última parte da resenha traz um resumo dos capítulos finais do livro, que visam compreender o espaço urbano como resultado das relações entre a materialidade de suas construções e espaços físicos, a imaterialidade de suas conexões e espaços de fluxos, e a atuação de atores humanos e não-humanos.

Boxes Towards Bananas: Spatial Dispersal, Inteligente Cities and Animal Structures

Matthew Fuller discute inicialmente como sistemas de mídia e tecnologias de construção podem influenciar a concentração ou dispersão de pessoas e objetos, como aconteceu, por exemplo, com a TV, que por algumas décadas foi um elemento centralizador dos residentes de um domicílio, e mais recentemente o telefone celular, uma tecnologia que permitiu a dispersão desses residentes.

Com uma referência a Vilém Flusser, o autor também explora como o desenvolvimento de uma tecnologia está ligada ao desenvolvimento de espaços especializados. Ferramentas amplificam as capacidades do homem, por isso passam a requerer espaços determinados para certas atividades. Um exemplo são as fábricas que se instalam em zonas alternativas visando uma estrutura mais adequada aos seus processos. A criação de espaços especializados portanto seria uma consequência da inteligência.

Então que tipos de padrões de concentração e dispersão poderiam aparecer pelo ponto de vista de outras espécies ou atores não-humanos? O autor observa os exemplos de formigas, aranhas e abelhas para afirmar que entre essas espécies o entendimento do espaço está intimamente conectado à forma com que este é habitado, construído e experimentado.

O autor indica então três características essenciais para o desenvolvimento de arquiteturas, design urbano e modelos para a cidade. A primeira característica defende o desenvolvimento de uma abordagem que envolva senciência da cidade incluindo múltiplas formas de inteligência e práticas espaciais. A segunda é a reafirmação de que no desenvolvimento de especialidades que intensificam inteligência, ocorre a espacialização. E a terceira é um questionamento sobre o que podemos extrair da criação de uma cidade que “aprende”, que desenvolve espacialidades capazes de experimentação e adaptação.

Space, Finance and New Technologies

Kazys Varnelis parte da afirmação de que novas tecnologias presentes no ambiente urbano (smartphones, celulares, computação pervasiva, realidade aumentada, redes sem fio, sensores) têm um papel importante no desenvolvimento de um novo regime espacial.

Foram avanços tecnológicos que permitiram a formação, por exemplo, dos sprawls, deslocando para regiões periféricas a produção industrial, centralizando nas cidades globais a produção e o controle financeiros através dos espaços de fluxos. Na dinâmica desses espaços de fluxos os fundos imobiliários tornaram o espaço um instrumento financeiro abstrato que circula por redes digitais globais. O resultado são espacializações que se formam a partir dessa lógica, como cidades e construções vazias determinadas não pelos contextos locais, mas pelo capitalismo global, seus fluxos e modelos automatizados de gestão de investimentos e índices financeiros.

Portanto uma questão a ser discutida em relação ao surgimento de um novo paradigma computacional aplicado aos espaços urbanos é que tipo de ameaça pode representar o contexto da cidade senciente sobre a nossa atuação ativa nas cidades. Ou seja, podemos nos tornar fantasmas, sem uma participação realmente decisiva, nas cidades dominadas pela computação disseminada e eventos ocorridos prioritariamente nos espaços de fluxos?

The Urban Culture of Sentient Cities: From an Internet of Things to a Public Sphere of Things

O argumento principal do artigo de Martijn de Waal é que o debate sobre a cidade senciente deve ser entendido como uma disputa em relação a esfera pública urbana. De um lado a idéia de que tecnologias sencientes contribuem para o esvaziamento dos espaços públicos urbanos. E de outro, a idéia de que essas mesmas tecnologias poderiam possibilitar novas formas de intercâmbio e práticas sociais.

O autor relaciona algumas definições sobre a cidade senciente, mostrando como a variedade de pontos de vista cria diferentes entendimentos sobre esse conceito. No entanto, mais importante do que a aplicação prática de uma nova tecnologia está a discussão sobre o que ela significa para a cultura urbana, que impacto ela pode ter nas nossas identidades e na maneira de viver de forma conjunta nas cidades.

Citando Arendt, Sennet e Habermas, o autor afirma que embora eles tenham diferentes posições, concordam com a idéia de que a sociedade precisa de um lugar em que as diferenças individuais sejam colocadas frente a frente. A esfera pública deveria ser então um contraste com a esfera privada. Mas uma série de fatores contrariam esse ideial, como a privatização, a paroquialização e o individualismo na forma de condomínios, automóveis e mais recentemente os telefones celulares. Esse fechamento para a diversidade da esfera pública pode diminuir nossa capacidade de lidar com outros e a solidariadade necessária para a manutenção de uma sociedade urbana inclusiva.

Por isso, a internet das coisas, a computação ubíqua e pervasiva e as cidades sencientes precisam ser pensadas em torno dessa esfera pública, que pode ter uma perspectiva distópica, na medida em que poderíamos utilizar essas novas tecnologias para filtrar nossos contatos e interações, ou utópica, através, por exemplo, de projetos e iniciativas que buscam reativar a idéia de esfera urbana pública.

Unsettling Topographic Representation

Para Saskia Sassen um registro topográfico não incorpora facilmente a digitalização e a globalização como parte representativa do urbano. Ao mesmo tempo em que devemos considerar a possibilidade de que componentes particulares da topografia de uma cidade podem ser espacializações de dinâmicas e formações globais e digitais. Nesse contexto, a topografia deveria ser pensada como uma construção de componentes materiais e digitais.

A representação topográfica de áreas ricas e pobres, por exemplo, mostraria suas condições físicas, sem destaque para conectividades que poderiam tornar determinadas áreas mais importantes no circuito global. Reestruturações econômicas estão produzindo múltiplas interconexões entre partes da cidade que topograficamente parecem ter pouco a ver umas com as outras.

Para a autora, se a espacialização de componentes globais e regionais se tornar legível, uma análise topográfica mais rica pode ser adicionada ao nosso entendimento dos processos. Por isso a importância da criação de ferramentas de análise que nos permitam incorporar essas interconexões na representação espacial das cidades. Isso também se justifica na medida em que tecnologias digitais podem servir para apoiar iniciativas locais e alianças além dos limites das cidades, importantes para uma época em que a noção de local cada vez mais perde espaço para atores e dinâmicas globais.

Your Mobility for Sale

Para Trebor Scholz, objetos habilitados com inteligência artificial podem permitir que as pessoas façam mais pelos outros ou por si mesmas, mas também podem ser utilizados pelo governo, setores comerciais e outros interessados. Por isso, arquitetos, urbanistas, artistas e o público precisam estar atentos aos riscos da internet das coisas.

Atualmente há uma eficiência cada vez maior da indústria de dados em intensificar a coleta, análise e construção de bases de dados a partir de serviços de internet, redes sociais e o uso de telefones celulares. Ao mesmo tempo em que vantagens são oferecidas por uma série de serviços online não há clareza na forma com que nossos dados são utilizados, por quem e por que razões. E mesmo serviços que podem parecer gratuitos na verdade são custeados pela nossa atenção e as informações produzidas a partir da coleta de dados e da produção de conteúdos, como reviews publicados em sites de comércio eletrônico, vídeos no YouTube e postagens em fóruns de produtos.

Por isso, o autor acredita numa espécie de relação de trabalho entre esses serviços digitais e seus usuários, já que estes últimos produzem riqueza, através da produção de conteúdo e fornecimento de seus dados, mesmo sem participação sobre os lucros financeiros conquistados pelo comércio dessas informações.

A questão central do artigo então é imaginar como essa relação de trabalho, unilateral em relação aos lucros, vai se transformar no contexto da internet das coisas, que poderá refinar a produção de dados, considerando também nosso deslocamento, interação com objetos e lugares. O autor apresenta então alguns pontos a serem avaliadas sobre essa questão: O que nós podemos pedir em troca a essa participação obrigatória? E ao fornecimento de dados pessoais para organizações que visam lucro? Quem vende esses dados, quem compra e por que? Como podemos fazer um opt-out desses sistemas?

Comforts, Crisis and the Rise of DIY Urbanism

No artigo Mimi Zeiger questiona porque não utilizar as ferramentas de computação ubíqua para deslocar a cultura do “Do it Yourself” do ambiente doméstico para o espaço público.

Inicialmente a cultura do DIY tinha uma característica doméstica, através de revistas e manuais que ensinavam, por exemplo, técnicas de eletrônica, agricultura, jardinagem e culinária. Recentemente o grande potencial informativo da web parece ter recuperado o interesse do público geral sobre esses tipos de atividades. Mesmo que celebrado em parte pela sua característica ativista, a nostalgia do DIY se fortalece inicialmente com o computador pessoal, e posteriormente com a integração entre smartphones e tablets e a vida cotidiana.

A proposta de urbanismo DIY trabalha então com a perspectiva do mundo como uma plataforma “hackeável”, que pode ser refeita, remodelada, como uma extensão do tipo de metodologia open source existente no desenvolvimento de software. Por isso, com a capacidade de realizar registros, relacionamentos e antecipações, a cidade senciente pode ser capaz de monitorar o ambiente e nosso comportamento através dela, se tornando um agente ativo na organização da vida cotidiana nos espaços públicos. Mas por outro lado, quanto mais senciente, estará mais aberta ao hacking e as intervenções. E essa mutabilidade pode criar espaços para o surgimento de projetos com características DIY.

Toward the Sentient City: Expecting the Extensible and Transmissible City

No artigo Anne Galloway discute como expectativas de futuro começam a formatar as coisas no presente. Para isso, ela faz uma análise dos projetos apresentados no livro e suas expectativas.

Inicialmente, a autora faz referência ao sociólogo Michel Callon que delineou um quadro de processos sociais e materiais que podem ajudar a entender como a cidade senciente pode emergir e considerar os papéis que as esperanças, expectativas e promessas atuam nesse processo. Considerando que ter expectativa por alguma coisa é procurar por ela no futuro. E que expectativas, mesmo que estejam orientadas para o futuro, também podem gerar fenômenos sociais no presente.

Expectativas podem ser positivas ou negativas, e especialmente no caso de tecno-ciências, são muitas vezes colocadas em termos de futuros utópicos ou distópicos. Aplicações de urban computing e mídia locativa podem ser diferenciadas pelo seu interesse em ativar espaços urbanos e relações sociais. E as percepções de realidade compartilhada e co-presença podem tornar os espaços e as experiências nas cidades sencientes mais afetivas, expressivas e significativas.

Portanto, se mais abordagens críticas e bem-humoradas, a exemplo das utilizadas em projetos apresentados no livro, forem esperadas e prometidas, mais alternativas interessantes ou trajetórias complementares serão oferecidas para nossa atuação. Considerando a urban computing inevitável, devemos ter a expectativa de que a vida cotidiana se torne melhor quanto mais pudermos estender e transmitir os melhores tipos de experiência urbana.

Postscript: Notes on Survival in the Sentient City

Para encerrar o livro, o editor Mark Shepard apresenta questões sobre a idéia de cidade senciente a partir de uma comparação com uma instalação exibida no Instituto de Arte Contemporânea (ICA), em 1963. A instalação “The Living City Survival Kit” trazia uma imagem com uma coleção de artigos cotidianos, manufaturados, descartáveis, portáteis, a serem indicados como essenciais para a vida na cidade. A imagem projetava uma realidade urbana que contrastava com certas ideologias de arquitetura moderna e planejamento urbano características do período pós-guerra no Reino Unido, que consideravam questões sobre gênero, cultura pop e consumismo fora do alcance de seus campos de atuação.

O autor faz uma referência ao conceito de “arqueologia do passado contemporâneo”, de Greg Stevenson, onde objetos comuns projetados para o dia a dia não apenas refletem forças culturais, mas também participam ativamente na formatação das relações sociais e espaciais entre as pessoas e o ambiente.

Pensando no futuro próximo, e não no passado recente, a proposta do autor é imaginar o que formaria um “survival kit” da cidade senciente, levando em conta algumas questões como:

- O que seria “sobreviver” na cidade senciente?
- Quais são as implicações para a nossa privacidade em uma cidade onde nossos dados são armazenados, segmentados e vendidos a grandes corporações?
- Qual será nossa condição de autonomia quando a infra-estrutura urbana se tornar reativa aos nossos movimentos e transações?
- Em quem, ou o que, vamos confiar quando a “responsabilidade” estiver dispersa em um conjunto conectado de atores humanos e não-humanos?
- O que será a “serendipity” quando andar pelas ruas se tornar uma busca em bases de dados de geo-localização?

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Resenha do livro “Sentient City”, Parte 3

Sentient city: ubiquitous computing, architecture, and the future of urban space, 2011. Editor: Mark Shepard.

Resenha de Leonardo Branco

SITUANDO O TRABALHO DO CONHECIMENTO NOS ESPAÇOS PÚBLICOS CONTEMPORÂNEOS

Anthony Townsend, Antonina Simeti, Dana Spiegel, Laura Forland, e Tony Bacigalupo
Nesse artigo os autores discorrem sobre a emergência uma força de trabalho cada vez mais móvel que está sendo atraída para locais de trabalho (públicos e privados) fora dos escritórios (cafeterias, parques, shoppings). Isso é possível hoje pela expansão da banda larga sem fio e pelos os aparelhos celulares. O projeto Breakout, desenvolvido em Nova York no ano de 2009, tinha como proposta o desenvolvimento de ferramentas e processos para apoiar grupos de trabalho em espaços públicos urbanos.

Na maior parte da história das cidades, o trabalho tem sido realizado em espaços públicos, onde ruas e mercados serviam como lugar de negociações e comércio. A combinação de três tecnologias – a máquina a vapor, o elevador e o telefone tornaram possível a concentração das atividades nos escritórios (Gottman, 1983) e a separação dos lugares de viver e de trabalhar.

Para os autores a mobilidade cada vez maior (melhorias nos transportes e comunicações móveis), permite a várias profissões trabalhar fora do escritório. Assim, “a mobilidade e a necessidade cada vez maior de colaboração entre trabalhadores e organizações cria uma oportunidade para que espaços públicos tornem-se parte da solução de design para os espaços de trabalho do futuro”.

O trabalho que saiu dos prédios de escritório para os espaços públicos é apoiado por uma série de tecnologias da comunicação (laptops e celulares), software (aplicativos como Twitter e Foursquare) e infraestruturas (Wi-Fi e redes de celulares). Nessa perspectiva os autores defendem que a relação entre mídias sociais e trabalho móvel é capaz de promover um papel de destaque para o lugar emtermos de comunicação.

O projeto Breakout buscou explorar as fronteiras entre o escritório e a cidade, trabalho e lazer, copresença e ausência. Do ponto de vista da estrutura foi disponibilizado um hotspot Wi-Fi portátil, uma plataforma de comunicação e um kit de escritório móvel, permitindo uma série de combinações para os envolvidos no projeto.
Os autores levantam algumas questões sobre o perfil desses “trabalhadores móveis”: Em primeiro lugar, “Embora os trabalhadores móveis sejam uma categoria emergente, é ainda difícil articular quem eles são, São freelances ou executivos, empreendedores ou acadêmicos? quando e onde trabalham?” Segunda questão, “embora mídias sociais como o Facebook e Twitter sejam usadas por alguns grupos, não são usadas por outros de forma alguma. Assim, O Twitter é limitado a grupos mais seletos.” Por fim, “a questão da colaboração – A maioria dos projetos colaborativos, requerem múltiplos níveis de engajamento, confiança e compromisso.”

O Breakout convidou os designers a Madison Square Park (espaço público que concentra firmas de design), para desenvolver ideias para estruturas e móveis do escritório portátil. Os princípios de design da arquitetura Breakout foram aplicados da seguinte forma:

- Apoiar uma variedade de atividades de trabalho (individuais, colaborativas, de compartilhamento,sociais).
- Aprimorar e ativar o espaço público.
– Ser replicável e acessível.
- Construir a partir de amenidades e infraestrutura de locais existentes.
- Prover sombra, privacidade (conforme necessária) e conforto.
- Poder ser montada diariamente por duas a três pessoas.
- Apoiar sessões colaborativas de até 20 pessoas.

AÇÃO É FORMA
Keller Easterling

Nesse ensaio Keller Easterling vai discorrer sobre as intersecções entre estrutura urbana e infraestrutura das comunicações com base na teoria ator-rede de Bruno Latour. Nessa visão a “infraestrutura digital é apenas uma das coisas que, em sua ubiquidade, muitas vezes torna-se obscura e a estrutura urbana é um substrato oculto, ou seja, o meio que conecta todos os objetos”. Assim, projetar a infraestrutura é projetar a ação dos actantes para o autor.

De acordo com a teoria ator-rede o autor vai apontar a infraestrutura (urbana e das comunicações) como “composta de ação tanto quanto de concreto, bits, cabos ou CPUs, onde suas atividades não dependem apenas de movimento, mas de relacionamentos inerentes a seu arranjo”. Easterling vai dizer que a noção de que redes técnicas como infraestruturas performáticas, é algo que Bruno Latour há muito postulou em sua renovação das ciências sociais, ou seja, Latour considera não apenas humanos, mas também tecnologias como atores.

Easteling vai definir a informação como um elemento que modela a morfologia e a organização nos sistemas biológicos ou mecânicos (humanos ou não-humanos), para isso recorre a Bateson que caracteriza o tema da seguinte forma: “A informação é uma diferença que faz diferença”.

ANSIEDADE DA INTERAÇÃO
Omar Khan

Khan vai iniciar o texto afirmando que na arte interativa, o espectador é um participante ativo na construção da experiência estética. Portando, uma relação em que o observador é compreendido como parte integral de seu ambiente, isto é, aqui a separação entre espectador e obra de arte é negada.

O autor vai dizer que na visão cognitivista da informação o conhecimento é resultado apenas de processos mentais, contudo a tendência atual é um enquadramento mais fenomenológico da infor

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Resenha do livro “Sentient City”, Parte 2.

Sentient city: ubiquitous computing, architecture, and the future of urban space, 2011.

Editor: Mark Shepard, artista, arquiteto e pesquisador. Projeto atual: “Hertzian Rain” que trabalha com a produção sonora na cidade.

Resenha Moisés Costa.

Natural Fuse

Neste capítulo é apresentado o projeto do chamado fusível natural (Natural Fuse), que tem como principio a geração de energia a partir da capacidade de pequenas plantas de capturarem carbono. Na verdade, cada planta se torna uma geradora de eletricidade, que é conseguida a partir de um mecanismo sob a planta, que forma uma unidade em rede, ligada pela internet, onde o conjunto de plantas troca informações sobre a capacidade do sistema. A soma dessas unidades permitiria com que algumas atividades que demandassem mais energia fossem possíveis, se o sistema não for usado por todos ao mesmo tempo.

Cada unidade do sistema foi entregue para uma pessoa, que ficou responsável por cuidar e usufruir os benefícios do sistema. Assim, o indivíduo encontra em cada unidade, três botões para controlar a energia que pode usufruir plantas: off, selfless e selfish. Ou seja, a cada indivíduo poderia ser altruísta no uso, fazendo consumo apenas da energia gerada pela unidade, ou selfish, onde a unidade proporcionaria mais energia que sua produção. A conseqüência do uso, em demasia, do botão selfish é a morte da planta de cada unidade de energia.

É interessante notar, assim como pontua o autor do projeto, que seu fim não é meramente ecológico (no sistema entre as plantas), mas antes um projeto de estudo de participação onde os indivíduos, ou actantes humanos, precisam tomar decisões que beneficiem a comunidade. Entretanto, a grande dificuldade esta no grau de altruísmo dos actantes humanos, que na maioria dos casos deixam suas unidades morrerem e, conseqüentemente, “matam” o sistema de benefícios. O dilema que faz com que os actantes humanos usufruam demasiadamente de sua unidade é o do ‘prisioneiro’, uma vez que ele não sabe o quanto os outros estão usando de suas unidades e, conseqüentemente, o faz usar o máximo por imaginar que os outros também estejam fazendo o mesmo no sistema.

Trash Track

Neste capítulo, o projeto partiu da ideia de tentar compreender para onde o lixo vai assim que é jogado fora, além de tentar entender como funciona a rede de distribuição de resíduos e qual sua conseqüência em larga escala.

Para fazer o rastreamento os idealizadores criaram, o que denominaram de, tags: pequenos dispositivos, com potencial de poluição mínimo, e dotados de tecnologias GSM (a mesma da maioria dos celulares atuais) que conseguissem transmitir sua localização a partir da interação com torres de telefonia móvel espalhados pelo mundo. Os idealizadores também contaram com a participação de voluntários, que surpreenderam às expectativas, não só pelo interesse em colocar as tags em seus resíduos, como também em saber sua trajetória ao longo do rastreamento.

Os autores pontuam que as cidades sencientes são facilitadas pelas novas tecnologias que conversam diretamente com os cidadãos. A construção dessas cidades também é facilitada pelo compartilhamento de informações por parte dos cidadãos e das instituições públicas. Todavia, segundo os autores, essas informações não podem ser dissolvidas, mas concentradas, porém não podem ser fechadas e devem ser de acesso para todos que compõem a rede. Somente, assim, com dados pervasivos e ubíquos, haverá condições para as cidades sencientes.

A idéia do projeto cruza com algumas premissas da Internet das cosias, onde objetos (dispositivos) podem sentir informações relevantes sobre seu ambiente, inferir a situação e comunicar instantaneamente aos dispositivos próximos ou difundir esse estado para o mundo. Conseqüentemente, este sentido pervasivo pode projetar mudanças, e no caso do projeto, concientização nos actantes humanos.

Too Smart City

Too Smart City from David Jimison on Vimeo.

Três mobílias urbanas são alvo deste projeto, que brinca com falhas intencionais deste dispositivos para criar um ambiente futurístico e pervasivo que tenta confrontar as expectativas dos indivíduos com suas expectativas sobre os mesmos.

As três mobílias são:

1. Too smart trashcan: uma lata de lixo, aparentemente comum, que analisa o que é descartado e joga de volta para os indivíduos o que não pode ser armazenado ali.

2. Too smart bench: um banco de praça que ejeta, literalmente, as pessoas que estejam “vadiando”.

3. Too smart sign: um sinal de praça que reconhece o transeunte e mostra sinais específicos para ele, variando entre o que pode e o que não pode fazer naquele ambiente.

Para os autores do projeto, o mobiliário urbano contemporâneo é projetado para fornecer serviços públicos. As mobílias modificadas tentam oferecer interações com o ambiente. A lata de lixo participa do saneamento, o sinal mostra informações de acordo com a situação e os bancos ditam quem pode ou não ficar sentado. Mas, em síntese, essas três mobílias são “piadas” em relação às expectativas do que podem ser cidades conscientes, que deveriam sentir e pensar, não necessariamente nos termos humanos, para ser tal.

Nesse sentido, as cidades deveriam sentir varias atividades a partir de dispositivos espalhados pela cidade, provendo formas de conscientização do que ocorre, instantaneamente e em todo o tempo.

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Infográfico Internet das coisas

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Resenha do livro “Sentient City”, parte 1.


Sentient city: ubiquitous computing, architecture, and the future of urban space, 2011.

Editor: Mark Shepard, artista, arquiteto e pesquisador. Projeto atual: “Hertzian Rain” que trabalha com a produção sonora na cidade.

Resenha Macello Medeiros – Prefácio, Introdução, Caps. 01, 02 e 03.

Prefácio

O livro é fruto de um evento realizado no outono de 2009 pela Architectural League e tenta responder a seguinte questão: “ao passo que as tecnologias digitais parecem estar desmaterializando mais mais o mundo a nossa volta (tal qual livros, cds e fotografias, qual o impacto que elas possivelmente podem ter em relação a inevitável materialidade das construções e das cidades? A proposta é conceber outra forma de compreender o espaço urbano, através dessa complexiadade que surge unindo as cidades e as tecnologias digitais (“tramas” do texto de vinícius). De forma secundário, os estidos de casos e ensaios do livro tem como objetivo mostrar como é possível trazer os arquitetos e designers para uma discussão sobre a cidade de forma a compreendeê-la não apenas como um espaço físico, mas como o resultado destas relações entre materialidade e imaterialidade ou atores humanos e não humanos.

Introduction

Este capítulo parte da ideia de que as cidades são inteligentes. O autor nos leva a compreensão de que esta “cidade inteligente” tem a ver com uma propriedade da cidade de reagir a determinado estímulos, que, de acordo com os projetos descritos no livro, são provocados e coletados (feedback) por tecnologias digitais através de sensores. Daí a denominação de uma “cidade sensitiva” ou “capaz de sentir”. Pode-se perceber que em todos os projetos existe uma complexidade na aplicação das tecnologias digitais para este fim. Os projetos utilizam diferentes sensores e formas de conexão entre hardwares e softwares que fazem com que a cidade seja “capaz de sentir”. Porém, neste capítulo, é apontado o estranhamento quando se pensa dessa forma – a cidade capaz de sentir –, já que a proposta dos projetos atribui a cidade um conceito não verificável nos atores não humanos. No decorrer dessa introdução, o autor vai descrevendo os demais capítulos reforçando as características sensitivas de cada um dos projetos relacionados. A grande questão que emerge após a parte do livro dedicada à apresentação dos projetos, esta relacionada à resultante da interceção destes três elementos: computação ubíqua + arquitetura e espaço urbano que vem a ser o subtítulo do livro.

Cap. 01 – Toward the sentient city

O capítulo começa descrevendo o projeto Living City, evento de exposições/mostras organizado pelo renomado coletivo de arquitetos, o Archigram, grupo de arquitetos que já buscavam essa interação das tecnologias e da cidade. O living city trouxe uma atitude provocativa de pensar a cidade como uma arquitetura que necessita atribuir fluxos com a vida moderna, desvelando na cidade a sua condição cultural, buscando, com isso, trazer um outro olhar para o arquiteto. Para tanto este arquiteto precisa vislumbrar novas formas de pensar a cidade, ou seja, pensar em uma nova arquitetura: “uma dinâmica urbana composta de luz, som e outras formas de comunicação urbana: comunicação estáticas + comunicação móvel + comunicação verbal e não verbal + signos + símbolos.” Nessa nova arquitetura é possível “ver acontecer + ouvir os sons + ver os fluxos”, em contraponto à noção do espaço formal, estático e imóvel. Ou como sugere Doreen Massey, enxergar o espaço como “aberto e em constante mutação”, o espaço de fluxos.

O objetivo é não olhar a cidade como mero espaço urbano formado por ruas, calçadas, espaços públicos, etc. Para tanto, o autor cita exemplos da integração dos computadores no espaço, elegendo a computação ubíqua (Weiser) como um elemento chave na propriedade de reação da cidade aos estímulos das pessoas e objetos. Novamente é abordada a discussão sobre “a capacidade de sentir de um não humano, relacionado aos conceitos de materialidade e imaterialidade, finalizando com a ideia de que o conceito de “senciência” rompe com uma forma de pensar a natureza das cidades e seus cidadãos. O autor relata alguns ceários apresentados pela experiência do coleitvo Archigram. Para o autor, partindo destas premissas, a cidade pode ser compreendida através de dados (data) coletados por sensores, ou seja, a compreensão do espaço através de uma forma não visual na qual as topologias das redes de tecnolgias digitais e a sua interceção com as práticas sócio-espaciais (o trabaho, para Lefebvre), se tornam mais importantes que a geometria formal das cidades (ou a representação do espaço).

Para o autor, os artefatos digitais (celulares, MP3, etc.) estão moldando nossas experiências no espaço urbano até mesmo mais que a arquiteura das cidades. Em determinado momento no capítulo, o autor vai tratar de como a relação entre a computação ubíqua e as mídias locativas cuja atuação permite que a cidade seja “escrita” e “lida”. Com isso, qualquer informação pode ser acessada, compartilhada e distribuída através de Tecnoligias e serviços baseados em localização (LBT e LBS). A produção de conteúdo, portanto, é fruto da reação da cidade provocada pelo uso de tecnologias digitais acessíveis a qualquer pessoa. Entre os projetos que seguem essa lógica, ele cita o Yellow Arrows, o Urban Tapestries, etc. como exemplos de um novo tipo de ambiente “consciente”. Com isso, a cidade reage ao habitante (sentimento, feeling) sem necessariamente connhecê-lo ou identifica-lo; a cidade não reage repondendo diretamente à pessoa, mas ao ambiente. No final do capítulo, é possível construir uma lógica de pensar nos profissionais, os arquitetos responsáveis inicialmente pela criação da materialidade da cidade (prédios), em contraposição à cidade dos “sentimentos”, do feelings. A grande questão seria como unir estas duas perpectivas, possivelmente quebrando este estígma do arquiteto como pensador da cidade apenas no seu aspecto material.

Cap. 02 – Systems, Objectified

Este capítulo destaca alguns projetos e grupos de artistas, arquitetos e designers cujo principal objetivo é aumentar estímulos do ambiente como foi o caso do Living City organizado pelo Archigram que provocou nos visitantes uma desconexão do espaço de galeria a partir da percepção das relações da rotina diária. Outro projeto relatado é o The System of Objects criado a aprtir da tese de doutorado de Jean Braudrillard baseado na definição de Lefebvre do “morador” não como um dono ou usuário do lugar mas um “engenheiro ativo da atmosfera”.

Outros projetos com a mesma temática e preocupação dos anteriores, utilizando desde conceitos da arte até robótica para provocar nos visitantes destes projetos e exposições percepções diferenciadas do espaço urbano. Por fim, o Instant City, um projeto conjunto do Archigram e do coletivo Ant Farm. O Instant City “busca definir a vida da cidade como resultado fluxo de informação criando por outro lado uma grande rede urbana ao invés da circulação de produtos e serviços enfatizado pelo seu predecessor”.

Cap. 03 – New Interaction Partners for Enviroment Governance

A principal proposta deste capítulo é apresentar um projeto realizado nas águas do East River em Nova Iorque, o Amphibious Architecture, cuja essência é chamar a atenção das pessoas para um ambiente que muitas vezes é desconhecido para a maioria delas. No entanto, antes de apresentar o projeto de forma minunciosa, o autor anorda alguns tópicos que consideram fundamental para o seu entendimento: a cidade, o carbono, a água, os prédios, os humanos, os invólucros. Em relação à cidade, o autor fala da sua compreensão como uma complexidade de fluxos e limites determinados pelos invólucros que compreendem esta cidade, tal como as fachadas (faces) dos prédios e as linhas que separam os bairros. No tópico sobre carbono, o autor destaca a participação deste elemento imperceptível, mas que merece uma atenção na cidade principalmente quando o desequilíbrio entre as taxas dele e as de oxigênio. Na cidade, existe também um fluxo que compreende esta troca entre o dióxido de carbono e o oxigênio, seja na superfície, seja em baixo d’água quando são observados a relação entre os peixes e as plantas aquáticas. É o que chamamos “Ciclo do Carbono”: “uma rede de fluxos que envolve humanos, animais, plantas, ar e água, em uma transformação essencial e sem fim do planeta e da cidade”.

Dessa mesma forma é a água na cidade, considerada atualmente como uma preciosidade que se deve preservar para um bom funcionamento da cidade. Neste tópico, o autor destaca um projeto de energia limpa implantado no leito East River através de turbinas instaladas que acabou gerando impactos tanto na vida animal quanto vegetal do rio. No entando, em se tratando de projetos desta natureza realizados nos leitos dos rios que correm pela cidade ainda são pouco explorados. No caso dos prédios, ocorreu uma mudança em relação ao uso de pré-moldados nas construções para prédios construídos de forma que as facadas possam ser aproveitadas com impacto estético nas cidades. Dentre estes, o autor destaca os invólucros eletrônicos nas cidades de Seoul, Shenzhen e Singapura. A percepção do autor quando se refere aos humanos dentro desta análise’e de uma verdadeira “simbiose” na qual estes são considerados o elemento influente e de interdependência nos fluxos dos outros elementos vistos até agora.

Em relação aos invólucros, o autor estabelece sete condições: tangível ou não tangível (bulding and not building), pequenos ecosistemas, interconeão em rede, públicas, interfaces para informação, ultra sensibilização, limites porosos ao invés de fronteiras duras. Por fim, o autor apresenta o projeto Amphibious Archtecture como sendo um exemplo de como estes invólucros podem ser reunidos em uma experiência na cidade. O projeto reúne uma série de procedimentos como redes eletrônicas, sensores para monitorar peixes e também níveis de carbono no fluxo do East River em Nova Iorque.

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Resenha do livro “Internet of Things”, parte 2.

VAN KRANENBURG, R. The internet of Things. A critique of ambiente technology and all-seeeing network of RFID. Amsterdam: TenworkNotebooks, 2008.

Por André Holanda

Capítulos 3 – Bricolabs

O capítulo 3 começa com a apresentação do projeto Bricolabs do coletivo MetaReciclagem. A iniciativa oferece oficinas e busca a construção de redes comunitárias e cooperativas de reciclagem de elementos de hardware assim como de software open source e conteúdo livre, não-proprietário.

Para Kranenburg, ele mesmo um dos incentivadores do movimento junto com o brasileiro Felipe Fonseca, os Bricolabs representariam um primeiro passo na construção de redes colaborativas capazes de oferecer uma alternativa às redes capitalistas baseadas em hardware e software proprietários.

O autor cita Doron Ben-Atar ao apresentar as ambiguidades da política de direitos intelectuais sobre tecnologia no começo da história americana (p.32). Seguindo os autores a decisão de respeitar ou não os direitos autorais na área da inovação tecnológica seria muito mais estratégica que ética.

O caso dos videogames hackeados é também um exemplo do padrão contraditório das posições americanas. A perspectiva defendida por Kranenburg reinvindica o direito de rodar qualquer software nos dispositivos que de possui assim como o direito de redistribuir este software livremente (p.33) Assim como os videogames subutilizados pela sua industria, surge o exemplo do Skype Phone, cujo potencial supera em muito as funcionalidade liberadas pela sua fabricante. Para MetaReciclagem, deve-se pensar a conectividade em termos de funcionalidades e não de dispositivos.

Esta filosofia é utilizada pelo projeto Hiveworks que converte dispositivos do dia-a-dia de forma a expandir suas funcionalidades e permitir a comunicação entre eles de modo a criar redes polivalentes e abertas.

Perspectivas de realização deste tipo de projetos ganham o impulso com dispositivos como o Reprap, uma impressora tridimensional que promete permitir a prototipação caseira de peças e artefatos e que é capaz até mesmo de produzir suas próximas peças. A ideia é levar a produção independente até mesmo ao nível da fabricação caseira de peças e objetos.

Para Kranenburg, o bricophone seria a realização de todos estes projetos com a flexibilidade das redes Hive, baseado em tecnologias, software e conteúdo livre. O autor fecha o capítulo com a proposta de responder as ameaças de uma Internet das Coisas baseada nos interesses e valores corporativos com uma “camada criativa” de iniciativas e conceitualizações que coloquem os valores coletivistas em primeiro lugar.

Capítulo 4 – How to Act.

Fechando o livro, Kranenburg sugere ações a serem tomadas para evitar os riscos de uma sociedade oprimida por tecnologias cada vez mais invasivas.

A imagem oferecida pelo autor para a alternativa que se nos apresenta é a oposição entre a cidade selvagem (feral city) e a cidade de confiança (city of trust). A primeira é dominada pela violência nas ruas e pela corrupção das corporações capitalistas, que se beneficia da informação roubada dos consumidores para a acumulação e maximização do lucro e acaba por produzir cidadãos destituídos de voz e comando. A relação entre confiança, desconfiança e informação (p. 49) é a chave para evitar seus males.

A “cidade da confiança” por seu turno, pode surgir da força oculta nas massas que habitam as metrópoles hiperconectadas da contemporanidade. Segundo o autor, já surgem iniciativas neste sentido, uma delas é o DIFR que busca uma forma de vencer a desconfiança em relação à tecnologia RFID através da criação de um Domínio Público na Internet das Coisas. Uma das formas de construir confiança em torna das tecnologias pervasivas como a RFID seria garantir que o consumidor esteja informado sobre as emissões feitas pelos produtos à sua volta, principal vulnerabilidade trazida pelas etiquetas RFID à privacidade do consumidor.

A estratégia da negociabilidade (p. 54) apresentada por Kranenburg seria uma forma de virar a mesa através da apropriação pelo consumidor das tecnologias pervasivas, criando modos criativos de exploração das brechas nos sistemas de controle e vigilância e colocando nas mãos do cidadão novas ferramentas comunitárias de comunicação e compartilhamento dos recursos tecnológicos de hardware e software da Internet das coisas.

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Resenha do livro “Internet of Things”. Parte 1.

VAN KRANENBURG, R. The internet of Things. A critique of ambiente technology and all-seeeing network of RFID. Amsterdam: TenworkNotebooks, 2008.

Por Luiz Adolfo Andrade.

Forward: A Tale of Two Cities por Sean Dodson

Neste prelúdio, Sean Dodson destaca o conto de David Brin 1998, Transparente Society, lançado há uma década atrás. No texto, Brin situa duas cidades no ano de 2018, as quais aparentam grande semelhança, mas são profundamente diferentes. As semelhanças ficam por conta das deslumbrantes maravilhas tecnológicas que caracterizam seu ambiente e sofrem dilemas advindos da deterioração que acomete o espaço urbano.

A primeira dessas cidades é a cidade do controle, cujo espaço é permeado por câmeras de segurança, processadores de imagem para scannear infratores, dentre outros. Nesta cidade, os cidadãos andam conscientes de que qualquer palavra ou ação pode ser notada por agentes do governo. A segunda cidade concebida por Brin é dotada de um ambiente mais transparente, fundamentado mais na ideia de confiança que de controle.

Uma década depois da visão proposta por Brin, Dodson pergunta qual das cidades teria se tornado realidade – a do controle ou da confiança? O autor observa que o argumento de Brin focaliza apenas a questão da ubiquidade das câmeras, e o que nós vemos agora, em 2008, são cidades amarradas juntas em uma internet das coisas – tecnologias mais sutis, situadas em lugares e objetos . O ninho de cameras de Brin encontra-se amarrado a uma rede sem fio , onde qualquer objeto e espaço pode ser localizado e monitorado. As cidades amarradas pela internet das coisas (p.06) disponibilizam lugares onde a infraestrutura urbana incorpora uma rede sofisticada de itens rastreáveis. A primeira cidade de Dodson, do controle, cada corpo, objeto e lugar receberia uma etiqueta de rádio frequência FID. Tudo que você compra, todos que você encontra, seriam monitorados. Ja a segunda, da confiança , seria superficialmente igual a primeira, porem os cidadãos teriam muito mais controle de suas coisas por conta dos sistemas pervasivos. Nela, os cidadãos são livres para monitorar e deixarem ser monitorados.

Dodson argumenta que a diferença entre o argumento de Brin e o dele é a prevalência de câmeras de informação integradas ao ambiente do homem. Autor faz analogia com a tese de Weiser sobre computação ubíqua, a qual descreve uma série de processos onde a tecnologia se integra ao ambiente do homem. Dodson finaliza pontuando a que a promessa da internet das coisas promete mudar nossas cidades e nossos relacionamentos, até mesmo mais que a ferrovia. Usa o exemplo da cidade chinesa de Shenzen, que em pouco tempo transformou-se de uma pequena vila de pescadores em um poderoso polo industrial, marcando a economia chinesa.

1 . Ambientes inteligentes e sua promessa

Neste primeiro capitulo, Rob Van Kranenburg assume que seu conceito de Internet das Coisas é fundamentado na tecnologia RFID (etiquetas de radio frequência,) que concede a lugares e objetos um potencial para troca informacional. Nesta direção, Van Kranemburg aponta algumas questões que figuram mais de modo provocativo que esclarecedor. O interesse do autor recai nas seguintes interrogações: como armazenar fluxos de informações em tempo real? Como fazer um mapa-los? Que são nossos sismógrafos? Como podemos combinar processos em tempo real com o significado que eles deveriam significar? Como encontrar maneiras de decidir o que é de dados e que não é de dados no espaço de fluxos?

Iniciando sua argumentação, o autor remonta a filosofia pré-socrática, onde haviam três domínios de conhecimento, acompanhados de três estados de saber correspondentes e igualmente importantes.

Na filosofia de Sócrates havia três domínios de conhecimento, com três estados correspondentes de saber igualmente importantes; Theoria, Techne e Praxis. Theoria é o domínio de conhecimento, onde reconhecemos nossos conceitos de teoria e epistemologia. Em Techne – com o seu domínio de conhecimento, a poesis podemos recuperar o conceitos de tecnologia e poesia – relacionadas, por exemplo, da seguinte forma: a poética de Sócrates pode ser vista como um catálogo de técnicas literárias. Von Kranemburg observa ainda que significado original da palavra ‘tecnologia’ diz respeito sobre o método ou saber fazer diário, o conhecimento do homem empregado sobre a técnica. Cita a Grande Exposição de 1851, em que a tecnologia passou a ser associada constantemente às máquinas atribuindo o domínio do conhecimento a questão da Praxis.

O caminho traçado por Karnenburg nos leva a ideia de que a pesquisa em interfaces inteligentes lidera as metáforas e os caminhos que eles focam nos laboratórios, explorando como os lugares e objetos podem ser ampliados com a informação. Nesta direção, o autor usa como referencial a tese da computação ubíqua (Weiser, 1991) para propor sua ideia de ambiente inteligente, marcado sobretudo pela ciência de contexto e a capacidade de convergir conteúdo de diferentes canais midiáticos. Mostra que as etiquetes RFID traduzem o argumento de Weiser sobre a computação ubíqua, pois trata-se e uma tecnologia de computação que desaparece no backgroun do ambiente do homem. Para Van Karnenburg, a busca pela ubiquidade fez o usuário entrar em um estagio onde seu ambiente torna-se interface, uma ferramenta fundamental para quanto a arquitetura, para integrar coisas, pessoas e informação. Neste processo, o autor destaca o papel desempenhado pelas redes sem fio na passagem da internet para a era da internet das coisas.

Por fim, o autor fala dos quatro niveis hierárquicos necessários para a introdução de uma nova tecnologia.

1 – Code: trata-se do axioma que cerca uma tecnologia
2 – Nó : novos dados e estruturas gerados pela tecnologia
3 – Link : aplicações e serviços que uma nova tecnologia afeta
4 -Rede – questões culturais e politicas que emergem junto da nova tecnologia

2 . Inteligência ambiente e suas “pegadas”

Neste capítulo, Kraneburg vai enumerar 5 capturas ou pegada destes ambientes inteligentes, discutidos no capitulo anterior. As pegadas descritas pelo autor consistem nos modos que estes cenários se apropriam do espaço do usuário. Neste caso, o autor pontua que estes ambientes são composto por objetos que “conversam entre si”, configurando a chamada internet das coisas. Esta argumentação leva para a primeira pegada identificada por Van Kranemburg – que não há concorrência que dispute com o paradigma da computação ubíqua e seus semelhantes – ambientes inteligentes, tecnologias calmas, ciência de contexto dentre outros caminhos que apontam para o desaparecimento do computador ambiente humano. Para o autor, em qualquer nível ou perspectiva que olharmos o ambiente do homem o usuário vai encontrar a chamada computação distribuída.

A segunda “pegada” descrita pro Kranenburg aponta que um ambiente inteligente deve se manter estável, ou seja, o usuário necessita que os serviços oferecidos nestes cenários estejamconstantemente disponíveis. A terceira pegada da inteligência ambiente (AmI) é a sua capacidade de armazenamento de armazenamento de informação. Inconscientemente, os usuários não percebem que ao lidar com o meio eletrônico acabam inserindo dados pessoais. A quarta captura descrita por Kranenburg é a “beleza” dos ambientes digitais, ou seja, todo o conteúdo relacionando ao usuário é disperso e fragmentado em blogs, websites, sites de relacionamento e etc., os quais ainda não conhecemos seus efeitos nocivos.

Kranenburg aponta a quinta captura da inteligência ambiente, chamada o ouro lado da moeda, ou seja, mesmo com seu potencial favorável os ambientes digitais podem ser apropriados de maneira negativa ou para fins ilícitos – nas palavras do autor, guerras de civis, brigas de gangues etc. Não se pode disponibilizar aos cidadãos aparelhos com certas funcionalidades e esperar que determinadas formas de uso e apropriação – devemos sempre considerar o outro lado da moeda.

Por fim, Kranenburg revela certas preocupações estética para favorecer o uso da inteligência ambiente. Por exemplo, este cenário requer níveis muito superficiais de agenciamento da parte de seus usuários. Qualquer alteração nos axiomas que compõem o background de um ambiente altera o nível de agencia dos cidadãos. Assim, o nível de agencia deve ser mais ameno que em outros cenários criados a partir da disseminação das novas tecnologias.

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Internet das Coisas

Começamos ontem o segundo semestre do GPC de pé direito. Fizemos uma boa discussão sobre espaço urbano e redes telemáticas a partir do texto de Vinicius Netto, na primeira parte da reunião, e a exibição e discussão dos vídeos “Internet of Things” e Hyper-Public Life.

O calendário de apresentações atualizado está aqui.

Nesse semestre vamos centrar as análise no fenômeno da Internet das Coisas, que traz à baila questões como privacidade, espaço público, espaço urbano, teoria ator-rede, mídias locativas, entre outros. Vamos discutir, além dos livros já expostos no último post, o Shaping Things de Bruce Sterling.

Acompanhem o GPC aqui e no nosso Twitter

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Programa (Provisório) do GPC 2011.2

Universidade Federal da Bahia
Faculdade de Comunicação
Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas

GPC – Grupo de Pesquisa em Cibercidade – 2011.2

Coordenador – Prof. Dr. André Lemos
Reuniões – Quinta, das 14 as 18h
Local – Sala 2 do PPGCOM/Facom/UFBa
 
Informações

http://gpc.andrelemos.info/blog

http://twitter.com/cibercidade

 
O Grupo de Pesquisa em Cibercidade (credenciado no diretório de pesquisa do CNPq) faz parte do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da FACOM-UFBa. O grupo é coordenado pelo professor André Lemos e existe desde 2000. O tema de discussão tem sido Comunicação, Mídia, Tecnologia, Espaço Urbano e Mobilidade. O grupo agrega professores do PPGCOM, professores e pesquisadores associados, estudantes de graduação e pesquisadores em mestrado e doutorado no PPGCOM. O GPC possui, desde 2009.2, um Laboratório de Mídias Móveis composto de equipamentos disponíveis aos pesquisadores (celular Android, data show, GPS Garmin, câmera Mini-DV Sony, netbooks, notebook, impressora, scanner de mesa, roteadores Wi-Fi, além de contar com uma pequena biblioteca com livros sobre a temática do grupo). O GPS mantem o projeto Wi-Fi Salvador (https://blog.ufba.br/wifisalvador/)
 
Pesquisadores Participantes
 
Professores do PPGCOM
Prof. Dr. André Lemos, coordenador
Prof. Dr. José Carlos Ribeiro
 
Pesquisadores Doutores Associados
Prof. Dr. Macello Medeiros

Doutorandos do PPGCOM
André Holanda
Darlene Teixeira
Fernando Firmino
Luis Adolfo
Renata Baldanza
Thiago Falcão

Pesquisadores Mestres Associados
Adelino Mont’Alverne
Leonardo Branco
 
Mestrandos
Diego Brotas
Paulo Victor
 
Graduandos
Leonardo Pastor
Nelson Oliveira
Ian Castro
Moises Costa

Atividades para 2011.2

Reuniões Semanais.

Atividade regular do GPC com todos os pesquisadores. Nesse semestre discutiremos o tema da Internet das Coisas. Os seguintes livros estarão em discussão:

Shepard, Mark (2011). Sentient City. Ubiquitous computing, architecture, and the future of urban space. Cambridge: MIT Press.
Greenfield, Adam (2006). Everyware. The dawning age of ubiquitous computing., Berkeley: New Riders.
van kronenburg, R. (2008). The internet of things. A critique of ambient all-seeing network of RFID., Amsterdam: Waag Society/Institute of Network Cultures.
Amin, Ash., Thrift, Nigel. City. Reimagining the Urban., Cambridge, Polity, 2002.

Dinâmica das reunião: Apresentação de material audiovisual de interesse (site, foto, vídeo…); Discussão dos textos; Resenha crítica do texto; Atualização do WiFi Salvador, do Site e do Twitter.

Interseções
Seminário semestral/mensal com convidados externos aberto a toda a comunidade.

Projeto “Histórias Soteropolitanas”
Mapeamento de histórias sonoras/escritas/imagéticas de pontos de Salvador.

Calendário

18/08 – Apresentação Geral. Discussão do texto de V. Netto.
25/08 – Internet of Things
15/09 – Internet of Things
22/09 – Internet of Things
29/09 – Sentient City
06/10 – Sentient City
13/10 – Sentient City
27/10 – Everyware
03/11 – Everyware
10/11 – Everyware
17/11 – City
24/11 – City
01/12 – City
08/12 –
15/12 – Último dia de aula do semestre 2011.2

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Reuniões do GPC 2011.2

As reuniões do GPC serão as quintas, das 14 às 18h, na sala 2 da Pós-Graduação em Comunicação da Facom.

Em agosto estará disponível o novo calendário de reuniões. Ver o link.

A primeira reunião será no dia 18 de agosto.

Provavelmente discutiremos nesse próximo semestre os seguintes livros:

A New Philosophy of Society, de Manuel DeLanda, 2006.
Sentient City, editado por Mark Shepard, 2011.
EveryWare, de Alan Greenfield, 2006.
Mobile Communication, de Rich Ling e Jonathan Donner, 2009.

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Geographies of Communication

Resenhas finais dos capítulos 5 e 12, por Leonardo Branco

Análise Textural – Materializando o Espaço Midiático (capitulo 5), de André Jansson.

O autor inicia o texto afirmando que a geografia da comunicação preocupa-se “como a comunicação produz espaço e como o espaço produz a comunicação”. Nesta perspectiva os teóricos da comunicação devem incorporar perspectivas geográficas em seus trabalhos e superar a divisão analítica entre os aspectos simbólicos e material do espaço.

A textura

O conceito de textura tem sido usado dentro dos estudos de engenharia e design para estudar as características e as aparências dos materiais e superfícies. Para Jansson, a análise textural pode contribuir para uma compreensão mais robusta das configurações espaciais na sociedade informacional.

Textura – Uma Visão Geral

Em The Death and Life of Great American Cities, Jane Jacobs (1961) vai descrever uma rua em Nova York, a Hudson Street, com ênfase no caráter ritual da vida cotidiana. A visão de Jacobs está relacionada com a noção de Erving Goffman da vida social como performance em paralelo com uma hipótese que a espacialidade material-funcional de uma cidade determina não só os movimentos, mas também a vida pública, as trocas simbólicas e a práxis comunicativa.

Assim, As práticas espaciais/comunicativas estariam de acordo com os arranjos espaciais pré-existentes da cidade, bem como de acordo com as regularidades temporais. As observações de Jacobs demonstram que as práticas espaciais/comunicativas numa região tendem a seguir regras formais e informais que dizem respeito a um dado espaço e tempo.

O termo textura

Deriva-se do latim textere, significando “tecer” e refere-se tanto à coisa tecida (têxtil), e ao sentido da tessitura (textura). Para o autor a textura nos ajuda a sair do sentido de espaço como contêiner. “Permitindo conceber o espaço em termos de uma densidade comunicativa”. Desta forma, através da textura, “a comunicação torna-se o espaço, e o espaço torna-se a comunicação”. As texturas, de muitos tipos diferentes, formam uma parte essencial da vida subjetiva do mundo nessa linha de pensamento.

Os conceitos de “alocalidade” (Relph, 1976) e “não-lugares” (Augé 1995) reduzem as possibilidades de se constituir sentidos para as lugares que são impulsionados por grandes fluxos de pessoas (aeroportos e estações de transportes em geral) que são considerados como “não-lugares” universais se pensarmos neles somente como núcleos de transporte. Contudo, para Jansson, ao estudarmos detalhadamente esses espaços no sentido das texturas encontramos arranjos espaciais-comunicativos específicos e que se diferenciam no espaço e no tempo.

Nessa leitura “o espaço é tanto produzido quanto interpretado através da textura”, isto é, através de uma materialização espacial da cultura. “A textura é um mediador dos aspectos simbólico e material do espaço, mas também das estruturas espaciais e da atividade comunicativa”, isto é, a textura conecta a dimensão espacial a esfera comunicativa de cada lugar, reivindicando a importância do lugar na comunicação.

Ritmos e Escalas Texturais

Jansson vai defender que as texturas operam de acordo com diferentes ritmos e escalas geográficas. Assim, propõe estudar as texturas de acordo com três diferentes escalas: regional, institucional e global, ou seja, a textura é diferente a depender de em que nível geográfico estamos interessados.

As análises texturais em escala regional lidam com a textura dos espaços geograficamente limitados. Diz respeito, por exemplo, como a televisão contribui para a regionalização dos ambientes públicos, problematiza a midiatização de lugares diversos como as lojas de departamentos, restaurantes nos quais a TV estabelece comportamentos sociais.

As análises texturais em escala institucional lidam com conglomerados regionais, mas em termos de mecanismos organizacionais. Aqui, o ponto de partida da análise não está nos arranjos espaciais, mas nas organizações particulares da vida social. Um exemplo são as texturas produzidas dentro da indústria do turismo que transformam o sentido das notícias ou do marketing dos lugares.

A análise textural numa escala global foca-se em como as texturas criam e articulam espaços desacoplados das geografias locais. Isto é, como regiões e instituições podem ser alargadas ou localmente desacopladas – através da produção de espaços eletrônicos ou virtuais na Internet.

Texturização, Durabilidade e Mudança

Nessa parte do texto, Jansson lança a seguinte questão: o que aconteceu com Hudson Street em tempos de novas tecnologias da comunicação? o que aconteceu com tal textura desde os anos 1960? Até que ponto os novos meios de comunicação – integrados no espaço (tecnologia de vigilância eletrônica); localizados no espaço (telas de TV), ou carregados pelas pessoas pelo espaço (telefones celulares) – alteraram a textura de sua vizinhança?

Ideologia

Neste tópico vai prevalecer uma leitura política da textura onde o autor vai recorrer a Lefebvre (1974), afirmando que a textura é “uma situação de reprodução e negociação ideológica, expressando como o espaço e comunicação devem ser organizados na sociedade”. Também acredita que a informação acelerada da sociedade levou a uma mudança histórica, uma revolução textural, similar àquela imposta pelo industrialismo. Esta revolução saturou espaços públicos e privados, tanto nas estruturas materiais quanto na interação simbólica (Paul Virilio (1990).

Materialidade

Reiterando a textura como elemento de ligação entre espaço e comunicação, Jansson diz que é essencial nessa compreensão a noção de inseparabilidade das práticas espaciais e comunicativas. Vai citar como exemplo uma conversa em um ônibus onde a comunicação produz o espaço, por meio da textura, isto é, “uma conversa entre duas pessoas num ônibus, por exemplo, produz textura por meio da representação do espaço através da fala. A conversa é fundamental para a textura, pois ela toma lugar numa certa localização, que obedece as regras comunicativas de certa região”.

Textura como Campo Epistemológico

O autor encerra o artigo afirmando que a análise textural não pertence a nenhum domínio exclusivo dos estudos de comunicação. Ao invés disso tem sua fundação na teoria social e cultural, como formulada por pensadores como Goffman, Giddens e Lefebvre.

Passagens da Mídia em Espaços de Consumo Urbanos (capitulo 12), de Johan Fornäs

Fornäs abre o capítulo afirmando que “o uso da mídia é sempre espacial e temporalmente localizado, tanto representa quanto molda o espaço e o tempo. A comunicação tanto toma lugar quanto cria lugar”. Assim, da mesma forma que as galerias e lojas de departamentos do século XIX, os shopping são locais de comunicação e consumo.

Nesses lugares as pessoas interagem com imagens, sons e textos de todo tipo possível. No capítulo são destacados os aspectos espaciais dos usos de mídia, explorando conexões entre espaços de mídia, espaços de compra (shopping) e espaços urbanos.

O autor esclarece que os espaços comerciais urbanos são localidades de comunicação, mas também de poder. Eles enquadram fluxos complexos de comunicação entre indivíduos, textos e instituições.

Passagens (projeto)

O texto foi construído a partir de uma pesquisa interdisciplinar que investigou os processos interativos de comunicação e consumo num grande shopping center sueco (Solna Centre). Esse espaço foi escolhido por ter sido planejado e é usado de modo altamente abertos e ambíguos, onde não há um predomínio de um determinado tipo de publico.

Fornäs volta a afirmar que esses lugares são densamente cruzados por fluxos plurais de mídias e pessoas, convidando assim à problematização dos próprios conceitos de lugar e espaço. Assim, “os shopping centers são planejados para atrair amplos conjuntos de consumidores em potencial, e não são monopolizados por grupos sociais muito específicos, em termos de idade, gênero, profissão, classe, etnicidade ou gosto cultural”.

Contudo, “alguns shopping centers diferem em seus graus de abertura social e espacial. Alguns têm sua amplitude estreita, direcionada a um estrato populacional especializado ou a uma gama muito limitada de lojas”.

Espaços de Comunicação

A interação entre pessoas e mídias é sempre contextualizado no espaço e pelo espaço para o autor. Desta forma, “os lugares enquadram e delimitam os usos das mídias, assim como os textos midiáticos representam lugares e espaços, dando-lhes significado”.

Todavia, na percepção de Fornäs, existem limites sociais e funcionais quando relacionamos lugar e comunicação isto é, “o lugar onde se lê, ouve ou assiste não é neutro ao significado da mídia. Tendo lido um texto em casa, na escola, no metrô ou nas férias gera uma certa diferença na forma com que é vivido – mesmo quando não são conscientemente relembrados”. Logo, “nenhum lugar ou espaço pode ser pensado de forma pura, sem que hajam significados simbólicos anexos a eles”.

Nessa linha de pensamento, um shopping center é um espaço de comunicação, uma espécie de “ nodo para inúmeras redes de comunicação, porém uma unidade que em si comunica-se com seus arredores. O shopping center é uma arena constituída por “fluxos de pessoas através de espaços e mídias, e fluxos de mídias através de espaços e pessoas”.

Um Centro para Comunicação e Consumo

No shopping os visitantes encontram as mídias enquanto passam pelo centro, através de textos de muitos tipos (placas de sinalização e promoções, por exemplo). A administração do shopping e as lojas também utilizam mídias para comunicar-se internamente. Logo, o centro possui poder comunicativo.

O autor defende que cada centro tem de criar e demonstrar uma imagem de si mesmo como um lugar único e atraente. “Um lugar seguro para sentir-se em casa, mas também um atrativo centro de eventos e experiências de entretenimento”. Nessa linha o design e arquitetura também são usados como meio de comunicação para Fornäs.

Espaços de Poder

Nesse tópico há uma tentativa de politizar a leitura do espaço do shopping. A ideia de poder que orienta Fornäs entende esse componente como uma forma coerciva de comunicação, e a comunicação como uma forma de poder simbólico. Aqui o autor vai dizer que ”todas as práticas em que o uso de mídia é espacialmente localizado são também, conflitos pelo poder sobre o espaço”.

Para o autor são claros os conflitos contínuos entre lojas e cadeias de lojas individuais, staff e administração do centro, produtores e distribuidores, e visitantes e clientes de diferentes tipos.

Já a “fronteira entre privado e público é vaga, e as regras precisas quanto o que é permitido no centro não são claras. Protestos políticos são permitidos nas ruas e quarteirões, mas dificilmente quando estes são postos no shopping. Isto perturbaria o comércio”.

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Geographies of Communication, cap. 3 e 4


Land Art – Robert Smithson

Continuando a discussão do Geographies of Communication, resenha do Paulo Victor dos capítulos 3 e 4.

Capítulo 3
Media Studies, Geographical Imaginations and Relational Space

Escrito por Richard Ek, professor da Lund University, na Suécia, este capítulo tem a proposta de traçar conceitos diversos acerca do entrelaçamento entre os estudos geográficos e midiáticos. O autor realiza uma ótima revisão teórica da área, de modo a contextualizar as discussões trazidas pelo restante do livro, buscando, num mesmo movimento, promover o interesse pela interseção das duas áreas.
Ek inicia sua abordagem propondo algo que faltou ser melhor talhado nos textos iniciais da obra (Geographies of Communication, de Falkheimer e Jansson): uma definição mais precisa para o que se cunhou de “virada espacial” nas ciências sociais. Em sua abordagem, o termo denota a mudança do olhar lançado para o espaço e para a vida humana, passando este a ser mais crítico e interpretativo, à maneira como o tempo e a história foram observados durante, por exemplo, o século XIX. Na base desse ponto de vista, encontra-se o pensamento do filósofo Henry Lefebvre e sua tríade sobre o espaço (concebido, percebido e vivido). Para além dessa dialética socioespacial, há também o entendimento de Edward Soja, para quem “a produção do espaço é tanto um meio como um resultado da ação e das relações sociais” (p. 48).

Tais visões são pilares para entendermos como a vida humana se dá nos lugares, além de buscarmos as formas pelas quais tais dinâmicas são espacialmente representadas. Em outras palavras, cabe dizermos que o espaço não é algo dado, uma existência em si mesmo, mas sim um processo, como um verbo em constante conjugação. Nas palavras de Ek, “there is no space, only spacing” (p. 51).

Outro ponto ressaltado pelo autor diz respeito às conexões entre as unidades que compõem o lugar. Buscando no pensamento de Michel Serres a ideia de topologia, Ek procura mostrar como não podemos problematizar apenas a disposição ou os limites euclidianos do espaço, mas como é fundamental ter em vista suas propriedades que independem das métricas. O que se busca frisar, portanto, ecoa nas palavras de Bruno Latour e na Teoria Ator-Rede: não importa exatamente as distâncias entre os elementos que formam um dado espaço ou uma rede, mas sim os elos e as ações entre eles. É o que Nigel Thrift cunha por conectividade, em franco ataque à noção de escala.

Essa contenda, aliás, talvez merecesse um exame mais acurado no texto em questão. A escala, por diversas vezes, é vista como portadora de propriedades hereditárias determinísticas – elementos contidos em recipientes maiores ganhariam características deste, e tal ideia pode ser aplicada tendo em vista a relação de um bairro para com sua cidade ou uma cidade para com sua região. No entanto, em termos de comunicação, é necessário notar que há fluxos entre os mais diversos pontos topográficos – de TV e rádio a blogs e SMS, passando por ligações telefônicas a conversas interpessoais. Longe de considerar a escala como algo problemático – afinal ela tem sua importância enquanto instrumento de análise geográfica – é necessário considerar a conectividade entre os elementos constituintes de uma rede – e, tendo em vista a ação aí existente, quaisquer noções de escalonamento e hereditariedade podem vir, de fato, a desmoronar.

Da mesma forma, todavia, como é necessário pautar as transições comunicacionais e interativas em ambientes online, por exemplo, igualmente se faz importante, para os estudos da Geografia da Comunicação, resgatar estudos ditos mais pessimistas, como os realizados por Edward Relph, Marc Augé e Paul Virilio. O primeiro utiliza-se do termo “placelessness” para indicar uma noção de esvaziamento do espaço: a partir da combinação entre o desenvolvimento tecnológico e o aumento de mobilidade dentro da sociedade do consumo, teríamos uma certa homogeneização dos lugares. Para Relph, dessa forma, ocorreria um enfraquecimento das identidades de cada lugar. Em sentido similar, Ek cita Augé com sua noção de “não-lugar”, caracterizado pela coexistência das pessoas ao invés de uma vivência coletiva, fenômeno verificável em lugares de passagem, como aeroportos ou shopping centers. Já sobre Virilio, Ek cita sua crítica sobre o velocidade de nosso tempo, a qual esfacelaria nossas formas tradicionais de deslocamento. Apesar da perspicácia dos autores – suas devidas críticas eram apropriadas a seus contextos – não se pode deixar de perceber que shoppings ou estações de metrô e mesmo toda nossa atual capacidade de mobilidade (o que John Urry chama de “motility”) parecem favorecer o surgimento de novas práticas sociais, especialmente para as gerações mais recentes.

Para concluir, Richard Ek reforça sua posição de que os estudos em Geografia da Comunicação estão alinhados com a ideia de que o espaço é produzido pela ação, sendo algo fluido e inconstante. O autor reconhece nas palavras de David Harvey e Henry Lefebvre a compreensão de que qualquer discurso sobre o espaço está embutido em um conjunto ideológico e tal reflexão deve ser um esforço por parte dos pesquisadores que desejam lidar com a interseção entre comunicação e geografia. Dessa maneira, nossos textos não apenas atuam na produção do espaço como também são produzidos por ele. Há um movimento de duplo fluxo, portanto.

Capítulo 4
Electronic Geographies

Neste capítulo, o autor Göran Bolin, professor da Södertöm University College, em Estocolmo, realiza um estudo de uma campanha publicitária para a melhoria da imagem da Estônia, lançando o foco sobre as formas pelas quais o discurso cria o lugar. Sua abordagem se aproxima rapidamente dos estudos de media effects, embora o autor não tenha mostrado pesquisas que nos falem da situação posterior à campanha.

Para Bolin, atualmente não há fenômeno descolado de qualquer eixo midiático. Dessa maneira, busca entender o papel da mídia para a cultura e sociedade. O autor busca, assim, mostrar o que entende pelos termos – uma discussão demasiadamente longa e até desnecessária para um artigo que se valorizaria ao ser direto, pontual. De modo resumido, para ele a cultura é uma descrição de um modo de vida particular, o conteúdo que preenche a sociedade, enquanto esta seria justamente uma forma de organização humana. Em diversos momentos, Bolin cita autores variados, a exemplo de Marshall McLuhan, Raymond Williams, Henry Lefebvre, Denis McQuail e Jürgen Habermas, mas muito mais como uma forma de dar base a quaisquer argumentações, sem, no entanto, se ater particularmente ao pensamento de nenhum.

Preparando um terreno para sua análise mais à frente, Bolin se remete à ideia de paisagem midiáticas, trazendo à tona três tipos de visualização sobre o espaço: o terreno, o mapa e o simulacro. A primeira categoria engloba o ambiente físico que nos envolve e, tendo em vista os estudos midiático, as relações óbvias entre diferentes tecnologias de comunicação – desde TV e rádio a computadores, tablets, DVDs, mp3 players etc. Passando para um arranjo mais abstrato, chega-se à noção do mapa, quando nos deparamos, a certa distância, com diferentes arranjos tecnológicos, sem contudo distingui-los muito bem. Nesse nível, pensa-se em representações mais genéricas. Ironicamente, o texto ressalta que o valor dos mapas se dá precisamente por sua veracidade: tanto mais verossímil ao mundo, mais bem avaliado será o mapa em questão. É precisamente neste ponto que chega-se à dimensão do simulacro, quando o discurso opera alguma força sobre a realidade.

Para além de suas dimensões, Bolin também divide as paisagens midiáticas em outros duas categorias: as relações tecnológicas e as de representações. A primeira trata de pensar a materialidade e a disposição das coisas no espaço. Fazendo um paralelo com Paul Adams e seu Geographies of Media and Communication, é o que seria chamado por este de mídia no espaço. O movimento inverso, todavia, também pode ser observado: Bolin cita o aparecimento de fios telefônicos, o que modificou radicalmente as paisagens urbanas, dando origem a obras que versavam sobre tal fenômeno. Nas palavras de Adams, aqui já se daria também o espaço na mídia.

Para o artigo em questão, entretanto, o mais útil é o nível das representações, que trata de pensar que cada explicação sobre o mundo apresenta sobre este alguns impactos. O autor fala da pintura de paisagem no século XIX e sobre como esse tipo de representação genérica esteve envolvida com projetos nacionalistas. É o que se verá a seguir em sua análise midiática. Em seu estudo, Bolin lança seu olhar sobre os modos pelos quais as paisagens midiáticas atuam na construção de culturas e da sociedade. Seu recorte se dá em relação à Estônia, tendo como objeto de estudo uma campanha lançada em 2001 para a promoção da imagem do país num grande concurso de música europeu.

Neste ponto, Bolin mostra basicamente uma análise realizada em cima de algumas peças impressas, como cartazes, com atenção especial às escolhas tipográficas e imagéticas. Não se trata de uma análise meramente formal, mas de conteúdo, com o intuito de compreender as mensagens que se desejavam comunicar. Diante de sua observação, os pontos que merecem maior relevo são:

As peças usavam as línguas estoniana e inglesa, não Russo, o que mostrava a clara separação entre os dois países, ocorrida com o fim da União Soviética em 1989.
O mapa da Estônia utilizado possuía um corte no Leste, referente, mais uma vez, à separação com a cultura russa.

A paleta de cores foi cuidadosamente pensada para evitar vermelhos, tradicionalmente associado ao Socialismo e à antiga URSS – mais um elemento a afastar a atual Estônia da velha união socialista.

As fotografias utilizadas mostravam pessoas “descontaminadas” no pensamento soviético, mostrando um alinhamento a padrões culturais do mundo ocidental.
Por fim, Bolin busca uma conclusão, questionando: a representação feita da Estônia é real? Sua resposta se limita a dizer que não se pode fazer tal julgamento. São reais, sim, para algumas esferas. O discurso, assim, é a realidade. Para o autor, fica claro que a campanha tenta instaurar uma visão determinada da Estônia no exterior, mas não considera em nenhum momento uma possibilidade de diálogo entre (segundo modelos mais tradicionais de comunicação) o emissor e o receptor da mensagem. Não obstante, a análise de Bolin é rápida, pouco descritiva (pressupõe conhecimentos prévios sobre a história da Estônia) e utiliza parcamente as bases teóricas lançadas na maior parte do artigo.

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Geographies of Communication


Foto André Lemos

O GPC discute agora o livro de Falkheimer, Jasper and Andre Jansson (Eds.). Geographies of Communication: The Spatial Turn in Media Studies. Nordicom: Goteborg, 2006. Pp. 309.

Resenhas por Luiz Adolfo:

No encontro realizado quinta-feira, dia 02 de junho de 2011, iniciamos a discussão do terceiro livro neste semestre, Geographies of Communication: The Spatial Turn in Media Studies, organizado por Falkheimer e Jansson. Trata-se da obra que estabelece o ponto de partida na linha de estudos Geografias da Comunicação. O livro vislumbra, de um modo geral, a relação da mídia com o espaço, de acordo com que os autores entendem por virada espacial nos estudos culturais e de midia. No primeiro dia de discussões sobre o livro, a apresentação dos capítulos 1 e 2 ficou a cargo de Luiz Adolfo de Andrade.

Capitulo 1 – Towards a Geography of Communication,

Neste capítulo, André Jansson e Jesper Falkheimer, organizadores do livro, apresentam as bases para renovar o dialogo entre espaço e comunicação. Esta relação, segundo os organizadores, vem adquirindo outros contornos nos últimos anos, tornando-se mais complexa na medida em que os novos meios de comunicação borram as fronteiras entre diferentes espaços e suas dimensões. Para entender esta mudança no campo dos estudos culturais e mídia, os autores buscam entender a chamada virada espacial nos estudos de mídia, que originou a disciplina da “Geografias da Comunicação – um subcampo da área das ciências sociais aplicadas .

As origens da relação entre geografia e comunicação reside no argumento, segundo os organizadores, de que toda a comunicação é devedora de um espaço e que todo espaço é criado através de representações produzidas pelos meios de comunicação. De acordo com Jansson e Falkheimer, as teorias de produção de espaço podem ser utilizadas para entender como a implementação e apropriação de meios e tecnologias embaralham não apenas os limites entre regiões geográficas (famílias, casas, cidades) e entre tipos de regiões (global e local; público e privado), mas também as dimensões que demarcam e constituem essas regiões (espaços simbólicos, materiais e imaginários). Nesta perspectiva, os autores defendem que a teoria espacial e teoria das mídias são mais combinadas atualmente que a há dez anos atrás, desencadeando a virada espacial nos estudos de midia.

Trata-se de um fenômeno evidente, segundo Jansson e Falkheimer, onde as primeiras pesquisadas são guiadas por duas questões – chave, que se aproximam de forma estreita: como a comunicação produz espaço e como o espaço produz comunicação (p.09).Jansson e Falkheimer argumentam que as caracteristicas da comunicação hiperespacial demandam novas reflexões entorno das categorias de texto e contexto, tornando obsoletos certos rituais de consumo destes elementos comunicacionais.

Os autores iniciam sua revisão citando o trabalho The Bias of Communication, de Harold Innis (1964), como primeiro exemplo de exploração da relação entre meios de comunicação de sociedade e os padrões de conhecimento e poder, realizada desde os primórdios até o século XX. Innis estabelece uma distinção, diferenciando mídias com características temporais daquelas com características espaciais. Enquanto as mensagens nas midias temporais são mais duráveis, como gravações em uma pedra, as midias espaciais são mais leves e permitem uma melhor disseminação de seu conteúdo, a exemplo do que acontece com as mensagens gravadas em papel. Innis destaca que as midias temporais serviram para as ambições do império religioso e seus propósitos de monopolizar o conhecimento, enquanto o segundo serviu de ferramenta para expansão do imperialismo militar (p.10-11). Além de ser a primeira pista para as bases da geografia da comunicação, as midias espaciais de Innis revelavam uma forma de controle do espaço pelos meios de comunicação.

No campo das ciências sociais, pode-se destacar os trabalhos de Meyrowitz (1984) e Virillio (1996), que analisaram as consequências das novas mídias e dos transportes em nossas percepções de tempo, espaço e lugar. Manuel Castells é outro importante referencial(1996), introduzindo o paradigma da tecnologia da informação como modelo emergente em paralelo às novas possibilidades tecnológicas do meio digital. Desta forma, Castells revela uma ideologia dominante baseada na cultura em espacos de fluxo de informacão que caracteriza a sociedade em rede. Bauman (2000) é outro referencial que contribui para a formação do subcampo da Geografia da Comunicação, comparando a sociedade do século passado a um curso sólido (pesado), que passou para o curso líquido (luz) na virada do século XXI, criando uma geografia de fluxos simbólicos que s estabelece entre os domínios de espaços geopolíticos.

As críticas de Jansson e Falkheimer são direcionadas às teorias anteriores, que focalizam a transmissão da mensagem de forma massiva, pressupondo fronteiras demarcadas e visíveis entre produtores e audiência, textos e contextos. “ comunicação hiperespacial incorpora uma celeuma de ambiguidades que configuram a base epistemológica dos estudos de mídia” (p.11).

Os organizadores apontam outras questões que dirigem a virada espacial dos estudos culturais e mídia. A primeira delas é a questão da mobilidade. Enquanto as pesquisas tradicionais focalizam práticas comunicacionais que acontecem em contextos particulares, predominantemente na esfera doméstica, a saturação de textos midiáticos implica em um largo compartilhamento e consumo de conteúdo em movimento. Jansson e Falkheimer entendem que as pessoas em mobilidade podem encontrar e consumir simultaneamente inúmeros textos midiáticos, a maioria de caráter comercial. Por outro lado, eles destacam a dificuldade de combinar mobilidade das pessoas com o caráter móvel das novas tecnologias. A mobilidade não e uma invenção do nosso tempo, trata-se um desejo inerente ao ser humano. A mobilidade de livros, trens e revistas são constantemente associadas ao estilo de vida das pessoas no período industrial. No ponto de vista dos estudos de mídia, a interseção entre mídias moveis e mobilidade das pessoas suscitam ambiguidades direcionadas ao estado de textos e contextos (p.12).

A segunda questão refere-se à comunicação hiperespacial, que envolve ambiguidades em termos de convergência tecnologia e cultural. Partindo de Castells (1996) e Bolter e Grusin (1999), os autores focalizam a criação de redes multimídias que são rearticuladas como eixos de fluxos de informação digital A convergência tecnológica cria não apenas novos modos de produção e consumo, mas alterações repetidas, por exemplo, as vigilâncias publica e privada. No mesmo passo, torna-se mais difícil separar a mídia de forma de representação particular, pois cada tecnologia habilita um forma de representação. Já a convergência cultural contribui para borrar as fronteiras entre textos midiáticos, em seu sentido tradicional. Essas fronteiras tornan-se negociáveis com base em uma logica Pós-Fordista (Harvey, 1994).

Em terceiro lugar, os organizadores colocam a questão da interatividade, posicionando novas possibilidades de interatividade online. Este tipo de interatividade foi largamente associado aos ambientes baseados na internet, como os MUDS, comunidades virtuais. Os processos de convergência potencializaram a questão da interatividade online para além destes ambientes. O exemplo adotado para ilustrar esta proposição é o formato dos reality shows, onde a interação entre audiência, participantes e produtores é ferramenta fundamental. Jansson e Falkheimer advertem que os estudiosos dos meios de comunicação devem considerar que as mediações não são apenas culturais, mas fenômenos que transformam os lugares de produção e consumo.

A era da comunicação hiperespacial fez com que os estudos de mídia fossem encarados como efemeridades, evolvendo três dilemas epistemológicos: a efemeridade de textos, a efemeridade de contextos e a efemeridade de relações entre textos e contextos. Estes dilemas motivaram a virada espacial.

Jansson e Falkheimer retomam o trabalho de Meyrowitz (1984), onde o autor combina as ideias de Innis e McLuhan com o interacionismo de Gofman. A tese de Meyrowitz , grosso modo, sugere que o novo meio não somente muda a percepção do espaço, mas também contribui para a mudança de papéis sociais (p.16). Outros trabalhos destacados são as contribuições de Anderson (1983) e Harvey (1994). O primeiro destaca como a mídia impressa contribui para a formação de nações concebidas como comunidades imaginadas, na Europa moderna. Já a analise de Harvey é uma densa exploração da compressão do espaço e tempo para explicar como os meios de comunicação no final do século XX contribuíram para a percepção de um mundo mais encolhido.

Por fim, o livro Media Space, de Nick Couldry, é citado como aquele que antecipa a geografia da comunicação, definindo o espaço da mídia como um domínio conceitual, passando do estudo da representações midiáticas para o emaranhado de escalas espaciais causadas pela produção de espaço. Este cruzamento transcende a oposição entre ritual e transmissão, que passam a ser entrelaçados como processos materiais, simbolicos e imaginativo, configurando as dimensões da Geografia da Comunicação, que seriam: (i) dimensão: politica e ideológica, produzida pelo cruzamento de esferas publicas e privadas, concebidas como local e global; (ii) dimensao tecnológica, que foca diferentes níveis em que a tecnologia modela e é modelada pelas relações sociais e processos comunicacionais; (iii) dimensão textual, que vislumbra como o espaço pode ser materializado pela cultura.

Talvez esta distinção das dimensões da Geografia da Comunicação seja a principal contribuição deste capítulo introdutório. É notável a necessidade de uma exploração mais profunda do que seria a virada espacial nos estudos de mídia, que é aqui definida de modo bem superficial. Percebemos também diversos ganchos para explorações futuras em outros trabalho ajustados ao foco desta disciplina. Por exemplo, uma diálogo mais próximo a outros paradigmas que acenavam para uma relação da mídia com o lugar, como é o caso da computação ubíqua (Weiser, 1991), computação pervasiva (Ark e Selker, 1998), privilegiando a relação das tecnologias calmas (Weiser et alli, 1999) com o ambiente do homem.

Capítulo II: Media Geography: from patterns of difusion to the complexity of meanings

Este capítulo apresenta uma discussão bem menos densa que a estabelecida no capítulo anterior, tentando apresentar parte do debate no campo das Geografias da Comunicação com foco nas mídias massivas. Birgit Stober, professora associada da Escola de Negócios de Copenhagen descreve trabalhos acerca dos meios de comunicação de massa conduzidos por geógrafos, considerados fundamentais para a disciplina proposta no livro. O objetivo é mostrar que os estudos da geografia, quando relacionados às mídias de massa, são influenciados por aspetos técnicos e políticos no âmbito das mass media. O método utilizado Stober é a descrição dos principais avanços em ordem cronológica.

Para relacionar geografia e comunicação de massa, Birgit parte do trabalho de Burgues e Gold (1985) , que distingue os trabalhos entre aqueles que enfatizam o fluxo da mídia e aqueles que focam o conteúdo das mídia. A autora percebe que os geógrafos das mídias com interesse na globalização são preocupados com as consequências econômicas da atividade de midiática multinacional e os impactos sócio culturais na produção e na distribuição de imagens e textos padronizados. Para ela, a geografia das mídias é um campo muito fragmentado, o que dificulta a revisão de literatura. vai tentar apresentar os principais estágios desse desenvolvimento da disciplina (p. 29-30).

Stober inicia sua revisão citando Hägerstrand (1965) e sua abordagem sobre a organização do espaço pelo jornal, onde ele conclui que os padrões de crescimento não são diferentes em escalas. Em seguida, cita a pesquisa de Walmsley em que é conduzida uma analise da informação espacial contida em mídias de massa na Austrália, em 1978, e a proposta da técnica de contagem dos nomes de lugares. Depois de insistir na descrição um tanto insuficiente de trabalhos conduzidos por pesquisadores alemães, Birgit aborda de modo mais profundo a notável contribuição de Relph (1976) em Place and Plaçelessness. Relph não conceitua os lugares como abstrações, mas como fenômenos diretamente experimentados no mundo vivido, repleto de diversidade, sentido e atividades ordinárias. Já outra noção, placelessness, consiste em uma fraqueza da identidade do lugar relacionada å media, ou seja, lugares sem identidade, um labirinto sem fim de similaridades (p.33).

Seguindo em sua revisão, a autora aborda Paasi (1986) e a discussão acerca da especificidade percebida nos jornais, a sua capacidade de criar tempo e espaço próprios na sua realidade social. Já Burgees (1985) diz que os jornais tem capacidade de moldar concepções de nossos ambientes físico, econômico e politico. Mais adiante, Stober destaca que Burgees (1990) propõe o conceito de realidades fabricadas pala ilustrar sua visão acerca as potencialidades dos jornais.

Finalmente, Stober conclui que os trabalhos revisados foram organizados metodologicamente em face das questões relacionadas à difusão espacial de instituições, produtos midiáticos e coberturas jornalísticas. A autora ressalta que que o debate entorno da mídias de massa pode ser dividido em dois polos: um pessimista, que sugere que elas apresentam caráter manipulador; outro otimista, que considera mass media um instrumento esclarecedor.

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Resenhas finais Urban Assemblages

Resenha de Assembling Money and the senses:
revisiting Georg Simmel and the city Michael Schillmeier
do Livro FARIAS, Ignacio; BENDER, Thomas. Urban Assemblages: How Actor Network Theory changes Urban Studies. London: Routledge, 2010.

Michael Schillmeier apresenta o trabalho de Georg Simmel sobre a modernidade urbana como uma forma precoce da Teoria Ator-Rede, inter-relacionando ambas a partir das suas propostas de mover o foco dos estudos sociológicos das macroestruturas para as microestruturas (ou micro-relações). Desta forma, os próprios processos a partir dos quais humanos e coisas se associam no espaço urbano (espaço-tempo de intermitentes traduções e modificações das configurações humanas e não-humanas), são uma oportunidade de problematizar o questão a partir da Teoria Ator-Rede.

O “terceiro elemento” Georg Simmel e os “mediadores e intermediários” de Bruno Latour.
Em “Sociology of the Senses”, publicado por Simmel em 1997, era ressaltada a importância de estudar as cidades assim como os organismos são estudados: a partir da decomposição das suas relações microscópicas para a composição de um quadro macroscópico maior. Neste sentido, a sociologia dos sentidos de Simmel, busca entender o sentido da percepção(e influência) sensorial mútua na vida social dos seres humanos. Um dos principais argumentos era que as especificidades culturais e complexidade da vida humana subjetiva estão intrinsecamente ligadas à maneira que ele se relaciona com o mundo dos objetos (elementos não-humanos) – que possuem seus próprios sentidos, regras, valores para além da vida social e humana. Aproximando esta ideia da perspectiva de Latour apresenta, lê-se que os objetos não são apenas objetos (ou matters of fact), mas são matters of concern: nossos interesses / utilizações formam o seu próprio ser.
Schillmeier destaca a necessidade, apontada por Simmel, de repensar as relações entre objetos e sujeitos. As visões Cartesianas e Kantianas desta situação problema são úteis pois trazem reflexões, respectivamente, sobre liberdade e necessidade e sobre sujeitos e objetos; porém, enquanto elas traçam uma visível divisão entre sujeito e objeto, é deixado de fora um terceiro elemento que media a relação entre humanos e não-humanos – e nossas relações sociais com as coisas. Para Schillmeier, a noção de ator-rede é o que Simmel buscava ao levantar a necessidade deste terceiro elemento de mediação, pois os atores-rede “dão voz” à este terceiro elemento (como dinheiro e tecnologias), configurando humanos e não-humanos como sujeitos e objetos. Ou seja, o ”terceiro elemento” de Simmel são os “mediadores e intermediários” da Teoria Ator-Rede.

É destacado por Schillmeier o entendimento de Simmel em relação ao dinheiro, que se aproxima bastante da Teoria Ator-Rede ao pautar as relações de intermediação entre seres humanos e os “immutable mobiles”.

O dinheiro como immutable mobile

As reflexões do autor sobre o dinheiro mostram como a economia moderna e a vida urbana são baseadas nos relacionamentos sociais e suas especificidades, construídas pela mediação destas relações pelo dinheiro. O dinheiro aproxima o humano do não-humano, mas o faz de forma a preservar suas diferenças (e divergência), dividindo-os entre sujeitos e objetos. Desta forma, ele funciona como um terceiro elemento, que intermedia a relação dos homens com os homens e dos homens com as coisas.
Simmel explora esta relação mostrando como a vida urbana é definida pela economia monetária, que nos faz agir como se apenas questões de ordem prática / imediata nos concernissem. A circulação do dinheiro está:

1. precipitando, individualizando e racionalizando a vida humana;

2. nos separando entre objetos que calculam e que são calculáveis; assim como está

3. objetivando as relações entre sujeitos.

A circulação de dinheiro estende os círculos e as relações sociais, portanto, Schillmeier sugere que o fator monetário seria mais um sistema de entidades heterogêneas que media as práticas se sociabilidade, alterando as práticas da vida cultura humana e as realidades (e limites) relevadas (e expandido) pela sua dinamicidade.

O autor reforça o papel crucial que o dinheiro tem na sociedade moderna, ressaltando sua ação, na perspectiva da Teoria Ator-Rede, como immutable mobile que conecta bens à lugares – pois ele é móvel, contável, combinável e pode circular das coisas que o valem até àquelas que o dão valor.

Resenhas Capitulo 11 e Posscript, por Talita.

Capítulo 11
City as value locus: markets, technologies, and the problem of worth
Caitlin Zaloom

Nesse décimo primeiro capítulo do livro Urban Assemblages, Caitlin Zaloom apresenta sua descrição da rede de actantes que faz com que a cidade de Chicago tenha o que a autora chama de valor lugar. Zaloom tenta mostrar como arquitetura, posição geográfica, acordos políticos, o expertise dos operadores da bolsa de valor e a organização física do mercado associaram-se ao decorrer dos anos e resultaram na criação do reconhecimento da cidade como uma das mais importantes para o comércio no mundo.

Logo após sua fundação, Chicago se estabeleceu como ponto de compra e venda de produtos no meio-oeste americano, em grande parte por sua posição geográfica ás margens dos grandes lagos e do Rio Mississipi. Para a autora, essa vantagem comercial fez que a infraestrutura da cidade se desenvolvesse, especialmente nos transportes, com estradas de ferro, e nas comunicações, com as redes de telégrafo e, mais tarde, telefone.

Zaloom conta que no início deste século, já dotada de infraestrutura e de redes de conexão, a cidade ainda precisou criar, através da Câmara de Comércio, um padrão de medidas para que os produtos circulassem mais facilmente e a informação das cotações das mercadorias fosse vista como confiável. No início alojada em um prédio de quatro andares, a Câmara de Comércio de Chigaco organizava as trocas comerciais. Para que essas trocas mantivessem a mesma intensidade, a cidade precisava agora de um mercado que trouxesse um grande número de operadores juntos em um mesmo local e tempo, de uma bolsa de valores que hospedasse pregões de compra e venda.

Para que as novas instalações cumprissem seus objetivos, a Câmara de Comércio pediu aos arquitetos que escolhessem materiais que absorvessem o excesso de barulho e fossem agradáveis de se andar, uma vez que os operadores passavam o dia em pé gritando os valores das ações. O novo espaço garantia a todos os operadores acesso igual às informações que eles precisavam, mas com os anos 90 chegou a necessidade de buscar informações em outros locais passavam que não apenas os painéis de compra e venda da bolsa. Assim, foram feitas alterações no prédio e na disposição das linhas de telefone. Para a autora, essas mudanças começaram a mexer não apenas na estrutura física do mercado, mas também em sua estrutura temporal. O design da bolsa ancorou o mercado dentro dos pregões ao mesmo tempo em que criou linhas de comunicação que o deslocava.

O mesmo tipo de mudanças pode ser observado com a chegada da Internet e, a partir daqui, Zaloom passa a contar os fatos que culminaram no estabelecimento dos pregões virtuais e na manutenção do status de Chicago como cidade especilista no desenvolvimento de mercados. O primeiro sistema de pregão eletrônico apenas reproduzia as cotações das ações, sem possuir as mesmas qualidades de centralidade espacial e temporal do piso de negociações da bolsa. Novos sistemas foram criados e passaram a agregar todas e demandas e ofertas possíveis, ao mesmo tempo.

O surgimento do comércio eletrônico também provocou mudanças nas bolsas européias. A Bolsa de Londres perdeu as negociações do Tesouro Alemão para a Eurex, pregão eletrônico que funcionava no horário de Frankfurt. Com os pregões eletrônicos consolidados, a autora afirma que os operadores de todo mundo passaram a fazer com o que o mercado se expanda e se contraia conforma o dia passa. As operações começam a acontecer na Eurex e seguem o fuso horário, passando por Londres até encerrar o dia de negociações em Chicago.

Pelo expertise de implantação do sistema de pregão eletrônico, os operadores e a própria cidade de Chicago agregaram ainda mais valor ao lugar da cidade. Zaloom conclui o texto afirmando que mesmo com a redes de informação, Chicago continua coordenando o fluxo de informação, assim como faziam os fundadores da Câmara de Comércio nas margens pantanosas do lago Michigan no século XIX.

O texto todo segue como uma descrição de eventos históricos e decisões comerciais. A ideia da rede de actantes, do mapeamento de controvérsias e da formação de caixas-pretas é perceptível, mesmo que autora não faça nenhuma citação direta a Teoria Ator-Rede. Aliás, o tom do texto é o de uma narrativa, sem revisões de literatura ou contraposição de autores, uma verdadeira história de rede contada por seus actantes.

Postscript
Reassembling the city: networks and urban imaginaries
Thomas Bender

O último texto livro retoma os pontos centrais da Teoria Ator-Rede, articulando-a com o estudo das cidades. Bender retoma alguns dos estudos trazidos no decorrer de Urban Assemblages e aponta perspectivas de estudo dos fenômenos urbanos a partir da TAR.

Bender começa o texto falando de sua própria experiência com a teoria, quando percebeu que os autores com que vinha trabalhando não possibilitam um estudo que enfatizasse as qualidades das relações para definir uma comunidade, o passado e o presente – seu objeto de estudo.

Segundo ele, ao entender a cidade combinação complexa de natureza e do trabalho humano e ao incluir humanos e não humanos nas análises, a TAR ajuda a resolver o problema da separação entre homem e natureza. Ele cita o texto Graham sobre o Furacão Katrina que propõe que ninguém pode imaginar a cidade sem natureza.

Outro problema que a Teoria Ator-Rede resolve é a da suposta homogeneidade da cidade. Segundo Bender, certamente cometeremos um erro se começarmos com o pressuposto de que a cidade é um todo, uma totalidade representada como contida ou identificada pelo espaço territorial que dá forma as relações sociais.

Essa extensão das redes e a simetria entre os actantes são para Bender a sua principal virtude, mas também uma fraqueza. Em sua leitura, a TAR nivela o significado dos atores e faz com o que resultado de uma ação seja de responsabilidade coletiva. Mesmo marcando a ideia de Latour de que a diferença entre não-humanos e humanos seja a intencionalidade, Bender contra-argumenta que se uma ação requer o ator-rede inteiro, a não-ação seria o resultado da recusa de um ator, porém, um ator pode se recusar a enquanto muitos outros podem agir.

Outra questão levantada no texto é a de se esse método de micro-análise pode ser eficiente na escala metropolitana ou dar conta da extensão geográfica de uma metrópole. Concordando com Thrift, o autor reforça a ideia de que a TAR apenas funciona para o estudo de situações bem definidas e que mesmo estudos anteriores sobre cidades se debruçaram sobre sistemas fechados como redes de energia.

A partir desse ponto, o autor recupera alguns dos capítulos anteriores para retomar conceitos gerais da Teoria Ator-Rede e passa a discutir os vários conceitos de cidade que se aplicam ao método. Para ele, a teoria produz descrições muito detalhadas dos atores-rede em relação a uma variedade de fenômenos urbanos específicos, por isso, sua maior contribuição seria a de uma teoria de distribuição da agência na rede de atores. Bender usa Lefebvre para falar que as cidades podem, então, ser entendidas como uma precipitação da história, uma vez que as cidades representam a inscrição do tempo no mundo e a história não é um pano de fundo, mas um ator participante das redes.

No tópico Assembling the City, o autor passa a fazer paralelos entre a TAR e a sociologia. Ele lembra que a sociologia nasce da necessidade de criar um sentido para novo padrão de relações sociais que a cidade estabelece e recupera as ideias de Gabriel Tarde. Para Tarde a sociedade é feita de pequenos grupos interativos, é uma invenção contínua dirigida pela atividade dos grupos que encenam um processo de imitação e inovação.

O texto argumenta que a hostilidade da Teoria Ator-Rede com a noção de grandes padrões sociais leva a considerar que deve-se examinar os lugares temporários onde as pessoas vivem suas vidas, os lugares comuns. Como a cidade é feita de muitas redes, para Bender, na pesquisa prática, o número dessas redes deve ser delimitado pelo número de perguntas que se busca responder.

O autor usa o trabalho de Latour no livro Paris Cidade Invisível para começar a desenhar a ideia principal que apresentada no texto, de que a cidade pode ser compreendida como imaginada. Refletindo sobre o livro, Bender sugere que se Latour continuasse a explorar a cidade de Paris, seria provável que ele fosse forçado a expandir e enriquecer a TAR para explicar a força institucional.

Na leitura de que par a Teoria Ator-Rede uma não ação requer tanta explicação quanto uma ação, para Bender a metrópole deve ser compreendida como uma combinação de elementos estabilizados e desestabilizados que está constantemente em processo de transformar e destruir, reconstruir e não arruinar.

Para terminar o texto, o autor apresenta as ideias de Kevin Lynch no livro The Image of the City, que mostra através de mapas cognitivos feitos por pessoas que moramos na cidade que fazemos. O imaginário urbano faz parte do agrupamento que inlcui os meios de comunicação e inventa a cidade. Essa metrópole imaginada dá forma ao que as análises sociológicas ou históricas apenas abordavam parcialmente.

Para Bender, a imaginação serviria como uma cola metafórica, ordenando e acumulando agrupamentos. A questão não seria a de se o social e o mental correpondem-se, mas se a construção imaginativa sustenta um sentido de ordem social. Desse modo, a TAR poderia pontuar nossas análises e nossas políticas, proporcionando muitos pontos de intervenção. Citando Amin e Thrift, a cidade moderna é tão continuamente em movimento e tão cheia de interações inesperadas que é rica em fontes de intenvenção política.

É desse modo que o autor retoma a ideia central de The Public and the Problems de John Dewey,
que julgava atos politicos e o verdadeiro valor das ideias por suas consequências, imaginava a política na forma de um público ativo tomando uma formação social solicitada do bem estar.

Bender acredita que a Teoria Ator-Rede se aproxima desse entedimento quando Latour sugere que os parlamentos são suplantados por outros agrupamentos. O autor assim afirma que as consequências humanas sempre foram de maior preocupação do que suas origens e motivos e que essa deveria ser uma plataforma razoável tanto para acadêmicos quanto para políticos.

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Urban Assemblage

O segundo livro discutido neste semestre pelo GPC consiste em uma coletânea de artigos editada por Ignacio Farias e Thomas Bender, que tem, como intuito, fazer um mapeamento de como a Teoria Ator-Rede vem sendo utilizada nos estudos de urbanismo.

FARIAS, Ignacio; BENDER, Thomas. Urban Assemblages: How Actor Network Theory changes Urban Studies. London: Routledge, 2010.

Abaixo resenha da Introdução, capítulo 2 e entrevista com Nigel Thrift por André Holanda.

Introdução

O projeto do livro está expresso no próprio título da introdução escrita por Ignácio farías. O descentramento do objeto dos estudos urbanísticos que a obra propõe adota a Teoria Ator-Rede como método de superação das velhas perspectivas redutoras. Para o autor, a cidade é feita da reunião de múltiplas redes e práticas heterogeneas.

Esta perspectiva recupera a postura de Gabriel Tarde e, portanto, entra em choque com o paradigma criado apartir das abordagens estruturais e marxistas.

Farías enumera os elementos principais da “caixa de ferramentas” da Teoria Ator-Rede.
Muito sumariamente a teoria é caracterizada como “uma certa sensibilidade para o papel ativo dos não-humanos na constituição do mundo, no sentido de uma constituição relacional dos objetos” cujo sentido pede “explicações simétricas” (p.3).

A bibliografia selecionada pelo autor para apresentar a TAR (Callon, 2001; Latour, 2005; Law e Hassard, 1999) apresenta três princípios centrais: a relacionalidade radical, a simetria generalizada e a associação. Actantes (humanos ou não) são mutuamente constitutivos e não pertencentes a domínios separados e incomensuráveis.

O conceito da “simetria generalizada” de Callon exige um repertório conceitual unificado para tratar de humanos e não-humanos, desta forma a compreensão da urbanidade precisa sofrer intensas transformações de modo a tornar-se uma descrição da cidade como mecanosfera, intimamente ligada à vida dos seres humanos que ajuda a constituir e dos quais recebe sua própria vida. Esta urbanização ciborque se comunica com o próprio imbricamento técnico-biológico que constitui o habitante humano desta ecologia política que é a cidade.

Tempo e espaço nesta perspectiva são efeitos das relações e associações que compõem a Rede de actantes. O livro busca mostrar que a cidade não existe em um espaço ou escala específicos, mas, ao invés, é série de “encenações” em múltiplos locais.

Este trabalho de descentramento deve superar três perspectivas “clássicas”, quais sejam: a cidade vista como forma espacial, como unidade econômica e, finalmente, como formação cultural.

Para a TAR, a ontologia da cidade caracteriza-se por três princípios. Em primeiro lugar, pelo seu posicionamento através da mobilização da rede de atores que a encenam, em segundo, por esta própria encenação e finalmente pela sua multiplicidade ontológica, não apenas no tocante à heterogeneidade da rede, mas igualmente pela associação entre entidades potenciais e atuais.

O autor resume da seguinte forma: “A cidade não é portanto uma realidade “lá fora”, mas é literalmente feita de composições urbanas, através das quais ela “vem a ser” de diversas formas” (p. 15) Vai além: “A cidade é portanto uma realização contingente, situada, parcial, e heterogênea: uma realização ontológica, realmente, já que envolve a encenação de um objeto de outra forma inexistente”. (id ibid)

Capítulo 2 – Globalization big and small
Notes on urban studies, Actor-Network Theory, and geographical scale.

O capítulo confronta duas visões do espaço social, de um lado, propõe-se um espaço nivelado, de outro, a geografia aborda-o com separado em escalas: regional, local, nacional e global. Nesta abordagem, os atores sociais seriam parcialmente definidos pelo acesso diferenciado a estas escalas. Consequência destas apreensões divergente do espaço é a existência de duas concepções igualmente divergentes da globalização. No primeiro caso a globalização é vista como resultado da dinâmica capitalista, no segundo como fenômeno sub-determinado que exige explicações mais complexas que uma mera determinação político-econômica.

O estudo apresentado no capítulo parte dos casos das maratonas modernas de Berlin, Nova Iorque e Londres. Estas maratonas caracterizam-se por serem grandes eventos de massa que renovam a experiência da vida nas cidades onde ocorrem. Para os autores este fato prova que “as cidades criam continuamente novas formas de vida coletiva, novos modos de viver juntos” (p. 55).

A seguir os autores comparam diversos esquemas heurísticos das hierarquias escalares da vida coletiva, a partir dos trabalhos de autores como Peter Taylor, Eric Swyngedouw, Neil Smith Neil Brenner, entre outros. A elemento comum é a apreensão do mundo como “organizado através de uma hierarquia de diferentes escalas espacias, cada uma das quais define de maneiras importantes a capacidade de agir de certos atores” (p. 59). Desta forma “a escala geográfica define uma série de linhas de força que estruturam o mundo de diversas maneiras desde a escala do corpo humano até o supra-regional e o globo” (id ibid).

Teria sido Fred Lebow quem transformou a maratona de um esporte restrito vivenciado fora dos espaços urbanos em um evento de massas, realizado através dos cenários das grandes metrópoles e como expressão de valores tipicamente associados a estas e ao mundo dos negócios que elas abrigam como o empreendedorismo, a competição e a superação.

Para os autores, estas competições deixam patentes certas insuficiências das hierarquias escalares. Em primeiro lugar por serem exemplos de padrões de organização que confundem ou escapam a estes esquemas de análise. Segundo, por evidenciarem que a análise escalar não descreve as transformações de escalas. O atores pode saltar de atores regionais a globais, ou curvar as escalas, o que seria inaceitável para a dita forma de análise (p. 64). Há ainda uma terceira crítica que ataca a submissão do local ao global. Para os autores melhor seria prestar atenção ao trabalho de manutenção e reparo constante exigido pelo nível local do que subsumí-lo à escala superior em cuja lógica estaria supostamente inserido.

Os autores guardam para o final um dos achados mais interessantes do trabalho, a compreensão das maratonas como máquinas geradoras de “afeto” (não necessariamente no sentido sentimental). Referem-se à criação coletiva e mútua de uma atmosfera “afetiva” pelos participantes e pelo público. Com base nesta proposta, o capítulo parece projetar um resgate do conceito de escala, desde que através de um “senso de escala” produzido justamente por esta ressonância local de que a relação entre espectadores e participantes da maratona urbana seria um exemplo.

Entrevista com Nigel Thrift

Em entrevista a Ignácio Farías, Thrift afirma seus pontos de vista frente a temas relativos às abordagens informadas pela TAR, discutindo questões como a contribuição de Gabriel Tarde, os limites da teoria, que ele crê mais produtiva em situação mais fortemente definidas e menos útil para questões onde, por exemplo, a dimensão psicológica esteja em jogo, dimensão que fazia parte das preocupações de Tarde.

Para Nigel Thrift as situações de forte oposição ou violência são parcialmente cobertas por Tarde e pela TAR, mas nenhuma destas concepções, segundo o entrevistado, consegue dar conta de todo o cenário.

A entrevista discute ainda a limitada capacidade do planejamento implicada na abordagem da cidade como virtualidade, no sentido de conjunto de potencialidades e tendências proposta pela obra do entrevistado. No entanto, apesar deste horizonte, Thrift reafirma a importância de formas de controle e planejamento, inclusive no sentido de agilizar a tomada de decisões que não podem beneficiar-se do processo de deliberação democrática.

Perguntado sobre a questão das escalas e outras formas de compreender a influência dos diversos exercícios de poder sobre as cidades, Thrift rejeita tanto a perspectiva escalar, que ele julga não fazer sentido, quanto a concepção do espaço como inteiramente nivelado. Inviáveis ambas estas linhas de análises, o autor está mais preocupado com as práticas definidoras de limites nas nossas sociedades.

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Urban Assemblages: Capítulos 7 e 8.

Abaixo, comentários sobre os capítulos 7 e 8 do livro por Thiago Falcão.

Capítulo 7: GUGGENHEIN, Michael. Mutable Immobiles: Building Conversion as a Problem of Quasi-Technologies.

Michael Guggenhein centra a discussão de seu capítulo na construção de uma apropriação da Teoria Ator-Rede que deseja desenvolver uma série de sub-conceitos para endereçar, em específico, o modo pelo qual os urban studies – e o direito – tratam edifícios como construções que, uma vez completas, livre do jugo de seus idealizadores, servem para ‘localizar interações’, de forma específica, determinada.

O capítulo se inicia com uma discussão das apropriações no uso da cidade a partir de suas mudanças, questionando, principalmente, o modo pelo qual edifícios são levados a ‘mudar de essência’, se redefinir, quando a vizinhança na qual eles se encontram estacionados passa por um processo de industrialização ou desindustrialização.

Guggenhein segue afirmando que edifícios consistem em tecnologias num duplo sentido: porque eles são construções – que possuem fins específicos independente de sua localização (um tipo de modo identitário conferido a um agente não-humano) – mas também são tipos de construção – um modo classificatório que, segundo o próprio, é da alçada de repúdio da Teoria Ator-Rede, pois esta “não se interessa por classificar os objetos em tipos”.

O autor empreende uma digressão a respeito do conceito de tecnologia para introduzir seu conceito – uma apropriação da ideia de Serres de quasi-objects – de quasi-technology: objetos que, às vezes se portam como caixas pretas, mas que, eventualmente, perdem esta qualidade. Para Guggenhein, procedimentos relativos a estas quase-tecnologias não podem ser calculados (como o são, no caso de tecnologias), porque estes dependem de categorizações situacionais que podem sobrescrever redes já existentes.

A partir daí, Michael Guggenhein inverte dois conceitos latourianos para criar suas apropriações: em primeira instância, ele argumenta que edifícios são ‘mutable immobiles’ (em contrapartida ao conceito latouriano de ‘immutable mobiles’), que são tecnologias de forma singular e que não podem ser resguardadas da intervenção externa, num movimento de pontualização comum; e o de white box – invertendo a ideia de blackboxing da ANT – que seria um movimento no qual uma rede seria reescrita a partir de substratos tecnológicos aparentemente nulificados quando da mudança na vizinhança de um edifício.

Em se fazendo, um rápido apanhado crítico com relação ao texto, as ideias de Guggenhein, apesar de serem claramente embasadas em construções da ANT, por muitas vezes deixam a desejar em sua articulação, às vezes até mesmo indo contra alguns preceitos básicos da teoria (quando da própria definição de quasi-technology, por exemplo).

Capítulo 8: GIRALT, Israel Rodriguez; GÓMEZ, Daniel López; LÓPEZ, Noel Garcia. Conviction and Commotion: On Soundspheres, Technopolitics and Urban Spaces

O capítulo 8 do livro Urban Assemblages traz uma discussão sobre o lugar do som nos urban studies. Os autores se apropriam de manifestações ocorridas em Barcelona, Espanha, para discorrer sobre a negligência que o som geralmente recebe, quando se estuda o espaço urbano. Para Giralt, Gómez e López, o som só é estudado, basicamente, partindo de dois frameworks: no primeiro, o som não rítmico é considerado barulho, enquanto o rítmico é considerado música – em assunções dicotômicas e maniqueístas.

O capítulo se enseja sempre nessa discussão, escrito de forma minuciosa e beirando o poético, com um fluxo de leitura adequado – mas não evolui teoricamente. O único uso que este faz da ANT (num livro sobre a teoria, diga-se de passagem), é para evocar a ideia de dobradura e de como estas ajudam a localizar os sujeitos numa suposta temporalidade, sendo que boa parte da discussão simplesmente ignora preceitos desta teoria.

A contribuição mais interessante do capítulo – que é de uma leitura maravilhosa –  é – sem dúvida – a apropriação dos conceitos de convicção e comoção de Peter Sloterdijk para se referir ao modo pelo qual estas ‘soundspheres’ carregam, consigo, uma ética e estética que os autores identificam como ‘tecnopolítica’, onde uma tecnopolítica da comoção seria responsável por ‘produzir rebanhos’, por uma identificação bottom-up, não-hierarquizada; enquanto uma tecnopolítica da convicção seria responsável por produzir um catalisador central – figura pública, por exemplo – que opera com o objetivo de produzir uma massa, um coletivo organizado de sujeitos.

 

 

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Mobilities, capítulos 10, 11 e 12.

Mobilities

Resenha por José Carlos Ribeiro

CAP. 10 – NETWORKS (REDES)

A base da discussão deste capítulo é a idéia de complexidade, em especial como as redes estão distribuídas através dos espaços e em grandes distâncias. Para isto, o autor busca referências na literatura, efetuando diálogos com diversos autores (Watts, Barabasi, Buchanan, Capra), centrando a análise em três tópicos: (a) small worlds; (b) conhecimento; (c) redes sociais. Com essa estratégia de abordagem, o autor chama a atenção de que os pesquisadores estão tendendo a empregar conceitos matemáticos para entender as dinâmicas sociais contemporâneas, as quais seguiriam uma nova morfologia, descentralizada, produzindo resultados, experiências e culturas sob uma nova perspectiva. Aponta também que a “sociedade em rede” é alimentada por sistemas micro-eletrônicos e nas TICs e que esta particularidade estaria provocando uma mudança em escala global que se inicia por volta de 1990.

(1) Tópico “Small worlds” - Neste tópico, o autor inicia a discussão apontando a característica dessa configuração ser feita através da existência de sistemas dinâmicos que evoluem, mudam e se auto-constituem através do tempo (Watts), bem como de ser feita por uma cadeia de poucos intermediários. Faz também uma articulação coma teoria dos 6 passo (Milgram) e com a idéia dos laços fortes e laços fracos (Granovetter). Indica e discute alguns experimentos mais atuais que teriam uma conexão mais direta com o fenômeno da web: experimentos de Buchanam – 4 a 10 degraus de separação de um ponto a outro; a distribuição aleatória (small worlds – laços fracos e fortes); a distribuição via lei de potência (presença de nós excepcionalmente recheados de conexões – Google, Yahho); a rede aristocrática (o mais conectado fica cada vez mais e o menos fica cada vez menos); presença de um caráter auto-poiético de sistemas dinâmicos. Ainda dentro deste tópico, o autor ressalta a importância da infra-estrutura técnica na configuração das redes potencializando o movimento e a mobilidade através das distâncias; menciona algumas características dos meetings (reuniões), em especial o fato de que essas agregações sociais terem um custo acentuado em termos de tempo, dinheiro e esforço, mas que pode resultar em ampliação e reforçamento da rede e no prazer da co-presença. Por fim, acentua a idéia de que muito da literatura das redes sociais presume que a informação é o recurso chave na criação e na extensão de conexões, mas observa de que existem mais componentes, dentre os quais a informação é apenas um menor elemento no conhecimento dos outros.

(2) Tópico “Conhecimento” - Neste tópico, Urry propõe uma classificação de aglomerado de redes: a) primeiro – existe uma linha ou rede de cadeia, onde muitos nós estão espalhados de forma mais ou menos linear (mensagem vai de um nó para outro); b) segundo – há centros de redes - nós concentrados (o que faz com que a proximidade do centro seja vantajosa); c) existem canais ou redes distribuição em que as comunicações deve ocorrer simultaneamente em mais ou menos todas as direções. Nesta parte,o autor chama a atenção de dois aspectos: (a) comunicações (mídia) estão reordenando a natureza do “conhecimento de pessoas” através da expanção dos laços fracos; (b) as redes de relações pessoais parecem seguir o padrão da rede aristocrática, neste caso, não são randômicas mas sim altamente estruturadas; e observa – de maneira critica – que a literatura dos small worlds não atenta para este fato.

(3) Tópico Redes Sociais - O autor inicia fazendo um resgate histórico, destacando que na primeira metade do século XX as famílias se estruturavam no modelo das “pequenas caixas” (co-presença informal) e que com o passar do tempo, houve mudanças, em especial a partir da gradativa implementação das tecnologias comunicacionais. Ressalta inclusive que alguns autores apontam isto como um problema: a perda ou decréscimo da co-presença (Putnam, por exemplo). Observa que a distância cada vez maior da “família distribuída” gera algumas consequências, sendo as mais significativas: (a) o planejamento e a necessidade de encontros periódicos para “estar em contato”; (b) a percepção de que os lugares estão sendo reconfigurados para possibilitar a vivência das três modalidades (lugar de trabalho, de residência e de lazer); (c) as redes serem estabelecidas a partir da idéia de projeto (diversas competências agregadas, diversas pessoas, diversas culturas); (d) presença de famílias não mais nucleares (divócios, pais solteiros, habitação conjunta etc.); (e) existência de famílias fragmentadas não apenas socialmente mas também espacialmente. Este conjunto de características formataria a presença de comunidades transnacionais - conectividade transnacional (mais viagens, mais usos de dispositivos comunicacionais – telefones, celulares, internet). Neste sentido, o uso do network capital ajudaria na sustentação de muitas conexões à distância.

CAP. 11 – MEETINGS (ENCONTROS)

Neste capítulo, Urry ressalta a importância dos encontros intermitentes (formais e informais) na (re)composição das dinâmicas das redes, através das co-presenças de tempos em tempos. Destaca que esses encontros se mostram em um modelo aristocrático (ao invés de modelo igualitário), e que requerem – na maioria das vezes – de deslocamentos físicos (de alguns ou de todos). Aponta para o “ônus da mobilidade” e observa que para se continuar em uma dada rede existem obrigações para viajar, para se encontrar e conversar. Ressalta também que é nesses encontrosé que são demarcadas esferas de poder, status, bens etc.

(1) Tópico “por que encontrar ?” – O autor comenta sobre os (cinco) processos que engedram movimentos intermitentes e encontros co-presenciais; reforça a idéia de que os lugares são centrais para a rede da vida social; discute a experiência da co-presença (face-to-face) como sendo feita no modelo “face-to-place”.

(2) Tópico “face-to-face” – Urry aponta as características das relações face-a-face, em especial resgatando algumas ideias de Simmel (a experiência do olhar como a mais completa reciprocidade entre pessoas) e de Goffman (atenção, confiança em relação ao outro). Discorre sobre a importância da ordem interacional (troca de turnos da fala, leitura da comunicação não verbal, regulação dos fluxos da fala, gerenciamento da impressão para os outros etc.). Destaca duas características principais: riqueza do fluxo das informações entre os participantes e o feedback contínuo entre eles.

(3) Tópico “encontros no trabalho” – Neste tópico, o autor discute a necessidade de vários encontros agendados e não agendados (tempo, formalidade e representação) e a proliferação de inter-espaços (bares, cafés, clubes de lazer, restaurantes, salões de aeroportos, hotéis), onde haveria a presença de circulação rápida, de fluxo contínuo, lugares que seriviriam para se reforçar os laços fracos (network capital)

(4) Tópico “encontros de amigos e de familiares” – Aqui, o autor resgata a discussão sobre as famílias distribuídas, ampliadas, não mais nucleares (divócios, pais solteiros, habitação conjunta etc.), o caráter fragmentário e reprodutivo que sustenta as relações familiares, os “laços fortes” entre os participantes. Explora estas questões através da análise de vários exemplos.

(5) Tópico “encontros em movimento” – Neste ponto, Urry examina a relação entre tempo gasto em viagens e a ideia de improdutividade e desperdício, através da análise de atividades efetuadas durante a viagem,o uso de dispositivos tecnológicos móveis e a ocorrência de possíveis novas rotinas sociais construídas nos inter-espaços.

CAP. 12 – PLACES (LUGARES)

Urry centra neste capítulo a discussão sobre o conceito de lugares em suas diversas perspectivas. Com este intuito, ressalta a presença de mudança de práticas sociais de land (física, utilização funcional) para landscape (aparência, sentido visual), isto é, a construção da cena turística, lugar para ser contemplado. Observa que neste processo, novas tecnologias do olhar foram produzidas e circuladas (livro guia, cartão postal), os lugares foram gradativamente sendo “kodakizados”, transformando os lugares em locais que devem ser conhecidos, comparados, avaliados. A presença da espetacularização dos lugares para que seja possível “entrar” na ordem global, para de alguma forma serem reconhecidos. Discute também a adoção de critérios e procedimentos que capacitam e monitoram os lugares visando desenvolvê-los em seu potencial dentro dos padrões de viagens globais (através de empresas de consultoria).

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Resenha dos Capítulos 8, 9 e 10

Resenha por Diego Brotas

CAPÍTULO 7: FLYING AROUND

Neste capítulo o autor retoma discussão dos capítulos anteriores, nos quais há um relacionamento dos espaços de mobilidade com sistemas de transportes, nesta parte especificamente os sistemas aéreos.

Há no começo do capítulo uma abordagem inicial do autor, que caracteriza a história da aviação como uma das principais e mais marcantes em diversos modos, transcendendo restrições espaciais e ainda cita que a proximidade geográfica, na maioria dos países, não molda mais relações sociais.

A partir desta afirmação Urry começa a buscar uma relação entre distintos tipos de mobilidade a partir do estudo de diversas características envolvendo os espaços e sistemas aéreos. Para isso ele vai dividir este capítulo em 3 partes: 1) Na periodização das mudanças ocorridas na natureza dos espaços aéreos; 2) Aborda os riscos do transporte aéreo relacionado ao desenvolvimento de sistemas específicos que tornam o movimento realizável; 3) Na natureza dos espaços aéreos, que é caracterizada por Urry como lugares de habitações enraizadas.

A preocupação nesta parte é de fazer uma exposição de idéias que se entrelaçam a uma noção de sistemas dentro dos espaços de mobilidade inseridos nos espaços aéreos, através de um histórico de períodos comparativos dentro da história da aviação. Ele parte do princípio de que diversos sistemas, tanto materiais (avanços da microinformática) quanto sociais se entrelaçam para dar uma caracterização dos espaços aéreos. Sendo assim, ele vai criticar mais a frente a idéia Marc Augé de que os aeroportos seriam não-lugares.

Para Urry, mesmo se os espaços aéreos fossem menos distintos como lugares e compartilhassem características em comum eles não seriam diferentes de outros diversos lugares,nos quais não são apenas caracterizados pela contratualidade solitária. Sendo assim os “espaços aéreos” podem ser identificados como lugares de organização material e complexidade social caracterizados por: tédio, cotidiano, rotina, mas também por processos, sistemas e tecnologias que garantem a ocorrência de uma mobilidade global.

Sendo assim, o autor conclui que os vôos e seus sistemas são centrais na ordem global emergente, gerando movimentos de massa, novas formas de habitar, interconexão, novas desigualdades, novos lugares de encontros globais e novos modos de se pensar sobre mobilidades.

 

CAPÍTULO 8: CONECTANDO E IMAGINANDO

Neste capítulo Urry vai começar a relacionar as mobilidades descritas nos capítulos anteriores com a comunicação. Primeiramente vai fazer uma caracterização e breve descrição sobre 3 tipos de comunicação: comunicação de um-pra-um, um-pra-muitos e muitos-pra-muitos. Para ele existe um “inconsciente tecnológico” formado por distintos sistemas comunicacionais que tornam possíveis o estreitamento e rastreamento espacial de pessoas e objetos.

Há a divisão deste capítulo em 3 partes principais para indicar uma imbricação de corpos, mobilidade e ambiente e a comunicação: comunicação virtual, viagem imaginativa e viagem comunicativa móvel.

Comunicação Virtual – o autor vai abordar nesta parte a natureza “virtual” que apresenta diversos impactos para o mundo do movimento. Para isso ele vai primeiro fazer uma relação entre o crescimento da microinformática e as novas vantagens para as redes, que de acordo com ele são: a flexibilidade, escalabilidade, capacidade de sobrevivência e portabilidade.

Logo após Urry vai passar pela discussão das comunidades virtuais, na qual ele argumenta que não há uma fragilidade nas redes e suplantação dos espaços pré-existentes como suportavam diversos autores pois de acordo com ele a comunhão e emoção não são relacionadas a um tipo de lugar e a presença intermitente é importante mesmo dentro dos espaços virtuais. Ele ainda vai concluir esta parte afirmando que a viagem ou movimento virtual se tornou parte do cotidiano das pessoas e que transformou a característica da co-presença.

Viagem Imaginativa – nesta parte, a partir de uma caracterização da TV, Urry vai identificar e descrever movimentos (ou mobilidades) que permitem acessos intensificados a outros lugares, culturas e pessoas. Vai citar também diversas formas de viagens imaginativas como: lembrança, textos, guias e folhetos, escritas de viagens, fotos, postais e filmes.

Viagem Comunicativa Móvel – há uma descrição de como a comunicação está relacionada atualmente com a mobilidade. Primeiramente apresenta a idéia de que o uso de objetos como ipod, laptops, e usos de telefones celulares para a caracterização de um movimento corporal aumentado.

Mais adiante há uma identificação de como a telefonia móvel tem elevado a portabilidade a novos limites que tem gerado novos affordances: para produzir um novo conjunto de objetos que possam ser utilizados em movimento, para fazer movimentos corporais que geralmente precisam ser “aumentados” pelos dispositivos móveis e para a mudança de relacionamento para além da conectividade produzidas por novos tipos de sociabilidade em movimento.

Dentro deste prisma, também, Urry vai relacionar e caracterizar os espaços destas comunicações como “interespaços”, que são lugares onde diferentes áreas e domínios de atividades se sobrepõe.

CAPÍTULO 9: PORTÕES PARA O CÉU E O INFERNO

Este capítulo aborda noções de espaços para a produção de desigualdades sociais relacionadas a mobilidades. O autor vai analisar que é notório como diversas mobilidades fragmentam sociedades nacionais através do surgimento do “local”, do “regional”, do “sub-nacional”, da “rede”, economia “diaspóricas” e “globais”, identidades e cidadãos. Ele procura examinar detalhadamente os processos de mobilidade que produzem e reforçam desigualdades sociais nas sociedades contemporâneas. Pra tentar identificar estes processos Urry divide este capítulo em 3 partes: cidadania e desigualdade, acesso e capital rede.

Cidadania e desigualdade – há a análise de algumas conexões entre diversas noções de cidadania e desigualdade social. Primeiramente o autor vai caracterizar a cidadania como a reivindicação de todos para usufruir das condições (de uma vida civilizada) e uma reivindicação para ser admitido um compartilhamento dentro de um patrimônio social, o que significa ser aceito como membro de uma sociedade, como cidadão. Ele caracteriza, a partir dessa idéia, e relaciona duas formas de cidadanias com mobilidades: 1) muitas cidadanias e identidades proliferam competindo e em alguns casos minando uma identidade nacional, são estas cidadanias de fluxo, preocupadas com as mobilidades em diversas fronteiras; 2) A idéia de uma cidadania nacional perde terreno para mais modelos universais de adesão localizada dentro de uma noção de desterritorialização dos direitos universais pessoais.

Acesso – nesta parte o autor descreve como a desigualdade social (relacionada ao acesso a diversas coisas) afeta a mobilidade. Para ele há 4 componentes para a noção de acesso relacionada a mobilidade: 1) de que todas as mobilidades requerem recursos econômicos; 2) Aspectos físicos que podem afetar certas capacidades físicas para exercer a mobilidade; 3) A organização dos serviços e facilidades e 4) Disponibilidade temporal.

Capital Rede – é a parte principal deste capítulo, pois Urry vai desenvolver essa noção de capital rede, no qual é uma construção de relação destes aspectos de “acesso” da parte anterior, reconstruídos por meio da análise do capital social desenvolvido por Pierre Bourdieu. De acordo com ele o capital rede aponta para as relações sociais reais e potenciais, nas quais permitem as mobilidades. E ainda é a capacidade de gerar e sustentar relações sociais com pessoas que não estão necessariamente próximas, nas quais podem gerar benefícios emocionais, financeiros e práticos.

Urry chega a conclusão de que o conceito de capital social é assim insatisfatório a partir do momento que somente comunidades em pequena escala podem gerar proximidades “face-a-face” e relações de confiança. Em contra partida, o conceito de capital rede demonstra como a co-presença e a confiança podem ser geradas a distância e isso pode pressupor o surgimento de um diferente e novo campo de mobilidades.

 

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Mobilities, Capítulos 4, 5 e 6

Esquina em Toronto (Foto André Lemos)

Segue abaixo a resenha dos capítulos 4, 5 e 6. Por Leonardo Branco.

 

 

Capítulo 4 – Pavimentos e Trilhas

O Caminhar e o Mundo Social - Este capítulo discute as forma de movimentação que servem de base para a maioria das mobilidades. Para Urry, o caminhar gera impressões na superfície da terra e as trilhas revelam as atividades sedimentada de uma comunidade.

Caminhando pelas Ruas - Nessa seção o autor examina algumas características do caminhar pelas ruas das cidades modernas. No século XVIII os caminhantes vinham de todas as classes, exceto das elites que acionavam outros caminhantes que os carregavam (em cadeiras).

A pavimentação em Londres permitiu novos papeis aos pedestres. As ruas pavimentadas tornaram-se locais da boemia masculina. Assim, a boemia converteu a cidade num espaço de fluxos.

No caso de Paris, com a reforma de Haussmann em meados do século XIX, foi constituída uma rede de bulevares. Esses espaços eram centrais nesta proposta de reconstrução da cidade. Em função dessa arquitetura, as pessoas podiam enxergar bem à distância, pela primeira vez em uma cidade, e poderiam vislumbrar para onde estavam indo e de onde vinham.

A atmosfera dos bulevares gerou um novo tipo urbano e solitário, vagando pela cidade, apto a se perder nas multidões (o flâneur). Tal caminhada envolvia o prazer visual, a imersão na multidão, o consumo de novos bens e o desenvolvimento geral do lazer.

Para Urry, quanto mais diverso for o publico que caminham, mais seguro é o ambiente. A heterogeneidade torna o ambiente interessante e seguro para aqueles que fazem a caminhada na presença de estranhos. Quanto maior a diversidade de atividades na rua, mais prováveis as interações.

Utilizando Goffman em sua análise o autor vai dizer que andar na multidão não é um ato desorganizado, ou seja, as pessoas raramente batem umas nas outras. As multidões de pessoas fazem uma enorme quantidade de pequenos e sutis ajustes, passos e direção. Para Goffman essas são tecnologias que os pedestres empregam para evitar se bater uns nos outros.

Caminhada campestre –  A caminhada a lazer no campo é um comportamento historicamente incomum. Em geral as áreas rurais eram lugares de trabalho, pobreza e movimentação forçada (andar para trabalhar). Os caminhantes nas áreas rurais eram vistos como indesejados (perigosos). Todavia, isso vai mudar quando a elite inglesa assume viagem pedestre como uma experiência valiosa e educativa, tornando-se moda caminhar distâncias e sair em tours de caminhada, contudo o caminhante não devia vagar sem destino. Ele devia trilhas que já foram caminhadas antes, isto asseguraria a estabilidade dentro da natureza (diferente do flâneur).

Gradualmente, os mapas tornaram-se disponíveis aos leigos, foram democratizados, de modo que os caminhantes poderiam carregá-los em suas expedições. Na Inglaterra do século XX, houve uma contestação dos direitos de ir e vir e isto envolvia o mapeamento que promoveu a institucionalização do acesso (legislação).

Por fim, nesse capítulo, John Urry destaca quatro questões que envolvem o ato de caminhar, a saber: caminhar necessariamente é uma aventura? Caminhar deve ser é algo solitário que alimente a reflexão ou um processo coletivo que estimule a sociabilidade? Caminhar deve estar associado com uma de saúde e condicionamento físico? Caminhar pode transformar as condições materiais com que se pratica a caminhada?

Capítulo 5 – Trens Públicos

Movimentando-se em Público - Neste capítulo, o autor trata de algumas tecnologias que ele denomina de maiores, pois envolvem grandes transições históricas. Vai focar especialmente na ferrovia e suas consequências para a vida moderna, além de analisar as reconfigurações do espaço, do tempo e das sociabilidades promovidas pelo sistema ferroviário.

Na opinião de Urry, o sistema de mobilidade da ferrovia conecta pessoas localizadas em diferentes lugares por meio de novas rotas. Assim, O espaço público se torna móvel e conectado surgindo um conjunto de processos que atenua a divisão espacial entre o público e o privado.

Mecanizando o Movimento - Sobre modernidade, Urry diz que é o momento em que as máquinas são vinculadas à experiência humana. Vai afirmar que as máquinas não podem ser consideradas como algo marginal, já que servem para constituir uma vida humana que não pode ser vivida sem elas.

Com o trem,

pela primeira vez na história, as máquinas de grande porte vão estar dentro da experiência cotidiana das pessoas. Um aparato mecânico poderoso e rápido (maquina ferroviária) é colocado como um aspecto familiar da vida cotidiana.

O autor vai definir os sistemas de mobilidade (de pedestres e cavalos) como de série, uma vez que cada componente é mais ou menos igual a todos os outros (uma série). Já a ferrovia inicia um sistema de nexo onde diferentes partes (trilhos, trens, estações, sinais) têm de funcionar juntas como um nexo rígido. Sem o nexo, os elementos em separado não existem. O todo só é capaz de funcionar se cada componente funcionar diz Urry.

Timetables –  Na era pré-industrial a maioria das cidades inglesas mantinha sua hora local própria, fazendo com que as ferrovias tivessem que ajustar os horários de acordo com os diferentes tempos das cidades. Um horário padronizado foi então estabelecido a nível nacional a partir da hora de Greenwich. Essa institucionalização do tempo (a hora de relógio do cronograma ferroviário para Urry) produziu uma mobilização pública e um culto da pontualidade. O autor vai dizer que existiu uma expulsão do tempo vivido pelo tempo do relógio.

Algumas características do tempo do relógio vão ser apontadas pelo autor, a saber: a quebra do tempo em unidades, o desacoplamento do tempo das práticas sociais, o uso amplo de meios de medição (relógios, relógios de pulso e de bolso, calendários, agendas, sirenes, sinos, diários), o caráter de cronograma das atividades de trabalho e lazer, o uso do tempo como um recurso que pode ser poupado e a transformação científica do tempo em unidades de medições.

Espaços - As ferrovias promovem efeitos espaciais de duas formas: primeiro parecem encolher o espaço através da ligação entre alguns lugares e eliminando os lugares intermediários e depois expandem o espaço ao conectar lugares que de outra forma jamais estariam conectados. Urry vai dizer que o poder mecânico da ferrovia cria seu próprio espaço, ligando muitos lugares diferentes (enquanto, exclui outros).

O desenvolvimento da ferrovia gerou consequências para o começo do turismo. As ferrovias transformaram os lugares num sistema de circulação, transformando o que antes eram espaços distintos em bens de consumo.

A ferrovia do século XIX também inaugurou dois locais de sociabilidade, o compartimento de trem e a estação. No primeiro, muitas distinções sociais surgiram entre os viajantes (diferentes tipos de vagão para cada extrato social). Esses trens refletiam o sistema de classes que emergia com o capitalismo industrial. Por sua vez, na estação um novo tipo de espaço público surgia dentro da Europa e América do Norte, com as estações exercendo papéis centrais na reorganização do espaço. As estações eram lugares de intercâmbio social inesperado e contingente.

Capítulo 6 – Habitando Carros e Estradas

Uma Breve História - Neste capítulo, Urry examina o crescimento do sistema automobilístico. Esse sistema estabeleceu uma nova forma de organizar o tempo, uma vez que os motoristas de carro podia desenvolver seu próprio roteiro da vida social. Desta forma, iniciando uma ampla gama de outros espaços que iam além do vagão e da estação de trem (incluindo o interior do carro como um lugar de habitação).

O desenvolvimento do sistema automobilístico foi favorecido por normas governamentais que promoveram a construção de estradas. Houve a união do carro com as noções utópicas de progresso (não ter estradas era ficar para trás). Discursos de que os pedestres deveriam se comportar adequadamente de modo a conseguir atravessar uma rua com segurança contribuiu para o domínio desse sistema sobre os outros.

A automobilidade e sua expansão - Urry abre o tópico falando que o carro é um meio de vida, e não só um sistema de transporte para ir de um lugar a outro. Seis aspectos são descritos: em primeiro lugar para muitos setores da ciência social a indústria de carros é o próprio capitalismo; outro ponto é que a propriedade do carro é um sinal da idade adulta (rito de passagem), uma marca da cidadania e a base da sociabilidade; o carro interliga uma rede formada por autoridades de licenciamento, refinarias, construção e manutenção de estradas, hotéis, vendas de carro e oficinas mecânicas, propaganda, design e planejamento urbano; o sistema de carros subordina os outros sistemas de mobilidade (caminhada, ciclismo, viagem de trem); a cultura automobilística é uma cultura dominante produzindo discursos do que constitui uma boa vida e do que é necessário para ser um cidadão moderno e móvel e por fim o sistema de carros gera um uso de recursos massivo do ambiente e uma escala extraordinária de mortes e ferimentos.

Automobilidade e espaço-tempo - O autor acredita que a automobilidade não é nem socialmente necessária, nem seu desenvolvimento foi inevitável, mas tendo sido estabelecida, parece impossível de ser rompida. Um exemplo é que o carro é bem mais flexível do que o avião, pois permite à maioria dos motoristas entrarem no carro e darem partida sem pedir permissão.

O sistema de carros reorganizou o tempo e o espaço a partir de quatro aspectos: Primeiro dividindo as territorialidades do lar, do trabalho, dos negócios e do lazer que antes estavam integradas; depois separou os lugares do trabalho das residências; desagrupou lares e distritos de negócios e finalmente fracionou os lares e os lugares de lazer.

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Mobilities

O GPC começou a discussão do livro Mobilities, de John Urry (Cambridge, Polity, 2008). Nesse semestre vamos discutir, além desse livro, as obras de Falkheimer, J., Jansson, A ., Geographies of Communication. The Spatial Turn in Media Studies., Göteborg,Nodicom, 2006; e Farías, I., Bender, T., Urban Assemblages. How Actor-Network Theory Changes Urban Studies. NY, Routledge, 2010.

Abaixo a resenha da primeira sessão de discussões feita por Paulo Vitor:

Um livro para pensar as mobilidades, as formas de movimento, os meios de locomoção e suas relações com a sociedade e as estruturas técnicas das quais dispomos: esta a proposta do sociólogo John Urry em seu livro Mobilities, cuja leitura temos realizado no GPC.

A obra é estruturada em 3 partes: na primeira, Urry trata de nos situar frente a diversas teorias, métodos e paradigmas acerca da mobilidade. Em seguida, tece relações entre os modos de movimento e comunicação, finalizando com reflexões sobre o cenário social, as redes de relacionamento, questões socioeconômicas, modos de inclusão e exclusão tendo em vista a mobilidade, dentre outros tópicos concernentes.

Em nossa primeira reunião, discutimos os 3 capítulos da primeira parte. Inicialmente, o autor nos fala de diferentes modos de encarar a mobilidade, apresentando 4 sentidos de mobilidade que devem ser consideradas: 1) como uma propriedade daquilo que pode se mover; 2) como uma multidão a necessitar de regulação precisamente por não ser fixa; 3) como uma possibilidade de mudanças sociais (ascensão ou declínio em classes econômicas, o que caracteriza movimentos verticais); 4) ou como migrações, transposições entre fronteiras (movimento horizontal). Essa divisão serve como orientação para o transcorrer do texto – uma forma de lembrar que o autor não trata meramente de mobilidade segundo um entendimento físico.

Em suas análises, Urry faz uso recorrente da ideia de sistemas, os quais funcionam como base para previsão e repetição de nossas ações. Sistematizando e domando o mundo, a humanidade conseguiu criar situações de menor risco para ela, o que, por sua vez, apresenta largas implicações para com a mobilidade. Exemplo de sistemas seriam o telégrafo, as linhas férreas ou os sistemas de abastecimento de água, que não apenas acompanharam mas também favoreceram a modernização das cidades.

No segundo capítulo, o sociólogo apresenta seu paradigma das mobilidades, o qual se pretende multidisciplinar (ter em vista diversos conhecimentos), conjuntural (observar múltiplos elementos em ação) e capaz de estabelecer uma ciência social orientada ao movimento – uma vez que as ciências “imóveis” ignoram ou minimizam o papel da mobilidade em suas análises. Por exemplo, autor busca em Georg Simmel uma base para pensar as organizações espaciais e suas consequências sobre a mobilidade das pessoas, bens e serviços, mostrando que certas estruturas físicas têm possibilidade de (re)configurar nossas construções sociais.

Neste ponto, Urry apresenta diversas aproximações teóricas sobre a mobilidade, tais como sedentarismo, nomadismo, migrações, diásporas, dentre outros, a merecer destaque a ideia de motility, termo que diz respeito às potencialidades que um determinado espaço físico provê ao movimento. É notável também que o autor se utilize bastante da teoria da complexidade para explicar fenômenos que antes eram tidos de modo linear. A base de tal entendimento está na constatação de que a física newtoniana já não dá conta de tudo e que, assim, é necessário observar os sistemas de maneira híbrida. Aqui o autor toca rapidamente na teoria ator-rede, com a qual também temos trabalhado constantemente no GPC.

Para finalizar a primeira parte, Urry vai traçar linhas em defesa de seu paradigma das mobilidades, tendo em vista que as ciências sociais são transformadas pela movimentação e que esta merece receber atenção para além da mera análise das estruturas físicas. O autor, assim, enumera diversos pontos de destaque para este novo modo de pensar o movimento, tais como: as relações sociais estão envoltas a conexões; estes elos criam sistemas complexos (objetos e humanos não estão separados); a mobilidade está relacionada ao poder (disciplina, segundo Foucault; controle, para Deleuze); os sistemas de mobilidade estão cada vez mais complexos e interdependentes, além de alienarem as pessoas de sua operação; e o funcionamento dos sistemas tem efeitos sobre o homem e suas atividades cotidianas.

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Augmented Urban Space

O GPC começa hoje a discussão do livro “Augmented Urban Spaces. Articulating the Physical ans Electronic City“, editado por Alessandro Aurigi e Fiorella de Cindio. (Ashgate, 2008).

Acompanhem as resenhas a partir da próxima semana e os insight pelo Twitter do GPC, em tempo real (a reunião é sempre as quintas, das 14 as 18h).

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Adams, Capítulo 7 a 10

Resenha de Paulo Victor. Capítulos 7 a 10.

No capítulo 7, Virtuality and Scatterd Gathering, o autor fala sobre diversas formas pelas quais as pessoas se reúnem online, incluindo mundos virtuais de Massively Multiple Online Role Playing Game (MMORPG), redes sociais como MySpace e até sites próprios para uniões matrimoniais. A premissa dentre todas essas manifestações é que as pessoas se encontram de alguma forma nesses espaços eletrônicos, a despeito de tais encontros serem presenciais ou não.
Utilizando-se da teoria dos usos e gratificações e do conceito de paisagens de Arjun Appadurai, Adams analisa os diversos ambientes já citados, considerando que o uso dessas mediações tem algum fim específico para as pessoas. A partir daí transcorrem variadas estruturas de utilização, como econômica, etnográfica ou ideológica, por exemplo. Por fim, conclui que as experiências subjetivas acabam por ecoar nos espaços, inclusive os virtuais, os quais não deixam de revelar relações reais, apesar das confusões em torno do termo.

Em Signs, Symbols, and Signals, oitavo capítulo do livro, o autor trata de uma estrutura comunicacional baseada em gêneros, discursos, textos e tropos, além do uso de signos, símbolos e sinais, tidos a partir de Barthes. Em linhas gerais, Adams percorre um longo caminho para discutir a conexão entre poder, discurso e textualidade, a qual está contida não apenas em textos escritos propriamente ditos, mas em todo tipo de produção cultural. Dessa forma, representações e ideias genéricas engendram uma relação de força sobre a realidade. Como diz o autor, “a palavra ‘continente’ não apenas dá nome a uma divisão pré-existente de terras; ela cria essa divisão”.

Já no capítulo 9, The place image, Paul Adams fala das interligações constituídas entre os lugares, suas representações e as pessoas que por ali circulam. Para o autor, não há uma relação causal entre o lugar e suas imagens: na verdade, um tem implicações no outro. Em outras palavras, a realidade tanto é construída pela comunicação quanto o jeito de encarar um território modifica a forma de agir nele.

Após tecer considerações sobre a idealização dos lugares e sobre a formação de comunidades dispersas em torno de um tema (como um lugar sagrado), Adams conclui que o senso moderno de lugar deve incluir um tripé para a compreensão da territorialidade: poder, comunicação e as linhas delimitadoras. Assim como o poder da palavra, a fronteira aplica formas de autoridade sobre o espaço, revelando-se, dessa maneira, como uma “forma de fala”.

Por fim, no capítulo 10, Internalization/Externalization, Adams procura tratar da formação de identidades a partir da espacialidade. Tendo por base a teoria da estruturação, o autor defende que nossas ações sobre o mundo se dão tendo por base um processo dinâmico de internalização e externalização. Utilizando as ideias de Giddens, Adams considera que a identidade não é algo dado a priori, constituindo-se em narrativas mantidas pelo indivíduo. Um dos perigos, assim, seria o cultivo de ideais amplamente difundidos em prol de um nacionalismo sem freios. Como mostra o geógrafo Yves Lacoste, a geografia, portanto, serviria em primeiro lugar para a realização da guerra. De qualquer forma, Adams conclui indicando que os meios de comunicação não conseguem injetar ideologia no público de maneira “hipodérmica” e, que na verdade, como nos mostra Foucault, as formas de poder não estão apenas do lado do emissor, mas também se reproduzem em práticas cotidianas por parte do público receptor.

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Adams, capítulos 4 a 6

Resenha do ADAMS, Paul C Geographies of Media and Communication. (Wiley-Blackwell, 2009),

Capítulos 4 a 6. – por André Holanda

O capítulo 4 de Adams: Communication Flows and Flowmations deixa de lado a lente histórica para analisar as formações de fluxos (flowmations) e padrões que compõem o cenário atual.

O trabalho recupera muito brevemente a tradição das teorias da comunicação. Desde a fórmula de Lasswell, passando pela teoria da informação de Weaver e Shannon; e terminando com o two step flow de Katz e Lazarsfeld. O foco na transmissão surge e é relativizado sem aprofundamentos e (o que é notável) sem nenhuma atualização.

Para discutir o tempo-espaço da comunicação, o autor esclarece a plasticidade do conceito de espaço na geografia moderna, de modo a fundamentar a noção de que tecnologias possuem um efeito de ajustamento espacial. A demanda por acessibilidade pode encontrar respostas (tele) comunicativas quando faltam meios de transporte concreto entre os pontos. Assim, conforme demandas sociais, econômicas e políticas, as tecnologias renegociam as dimensões de tempo-espaço. Renegociam, não eliminam as distâncias, o conceito de custo-espaço é útil também para isto.

No entanto o autor faz um alerta no sentido de que a compressão espaço-temporal provocada pelas tecnologias não seja vista como (a) universal, (b) irreversível ou (c) triunfal (ADAMS,2009,p. 50), uma vez que própria convergência pode gerar movimentos divergentes. A concentração na cidade, e a posterior busca de refúgio na praia, no campo, no turismo, nos suburbia (condomínios fechados no caso brasileiro). As reorganizações do espaço relacional são constantes e complexas. Um exemplo desta complexidade está na questão da exclusão digital.

As histórias da difusão do telefone e da internet, bem como a análise das suas assimetrias fecha o capítulo com diversos exemplos das múltiplas dimensões que renegociam as distâncias relativas entre países. Sempre convivem os movimentos de convergência e divergência.

No capítulo 5: Topologies of communication, o autor apresenta conceitos da teoria das redes tais como: a dimensão de cada nó determinada pelo número de conexões que ele realiza. Adams esclarece esta forma peculiar de analisar o espaço relacional estabelecido pelas redes que é a topologia. Fundamental nesta análise é o conceito de small world, um tipo especial de rede, estruturada em laços fortes (que unem nós próximos) e laços fracos (que unem nós normalmente pouco próximos). A diferença é a mesma que existe entre relações familiares e profissionais.

A importância dos laços fracos é que estes permitem a formação do efeito de “pequenos mundos”, em que mesmo em redes muito complexas, existem caminhos geralmente muito simples unindo quaisquer dois pontos que se tome. O teste destas redes é o experimento dos “seis graus de separação” (GUARE, 1990) que propõe a existência de apenas seis pontos de contato a percorrer para encontrar qualquer pessoa na terra: você conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém que conhece esta pessoa.

Só as redes que não são nem completamente regulares (formadas unicamente por laços fortes) nem completamente aleatórias (compostas por laços fracos) podem provocar este fenômeno, justamente o que permite cruzar as distâncias em uma rede vasta e organizada são os laços fracos.

Um dos fatores que interferem na topologia das redes é o seu processo de formação. O crescimento das redes privilegia a concentração de valor em poucos links, que passam a atrair mais conexões, quanto mais conectados sejam. Desta forma, é um equívoco dizer que a rede é uma estruturação em si mesma democratizante, como se fosse destituída de hierarquia. A lógica de crescimento das redes é a concentração cada vez maior de valor em pontos de destaque.

Uma forma de adequar a análise topológica a estas assimetrias é utilizar a Q-analysis de Peter Gould. Esta metodologia considera também o valor do link assim como a dimensão dos nós. Além de simplesmente detectar que A e B estão conectados, como ocorre na WWW, é necessário considerar que tipo de relação une A e B. Estas relações diferenciadas permitiram mais tarde diversos mapeamentos da mesma rede segundo critérios diferentes. Você pode estudar um grupo social destacando apenas os laços de casamento em que Fulano e Beltrana estão próximos (cônjuges) e descartando os laços profissionais em que os mesmos estão distantes (ele engenheiro da empresa X, ela dentista no consultório Y).

Adams propõe rapidamente uma forma de analisar topologicamente o lugar, uma sala de aula em que o professor é claramente um hub, centralizando as conexões de todos os alunos; um escritório em que existem hubs locais (gerentes) conectados a diretores, que não estão conectados com os funcionários mais subalternos, ou discussões todos-todos, em mesas de bar. Esta visão topológica dos lugares lembra a questão do dispositivo de Foucault e o panopticon de Bentham que autor cita muito brevemente.

Já no capítulo 6: Inclusion/ exclusion, Adams trata dos processos de formação territorial através das dinâmicas de inclusão e exclusão dos lugares de interação. O primeiro passo é fazer uma crítica da visão idealista de Habermas da “situação ideal de fala”, mais uma vez no sentido de colocar em relevo a questão das assimetrias nas diversas “esferas públicas” que de fato existem ao invés de nos apegarmos à condição ideal de Habermas.

Este processo de territorialização baseia-se, como dissemos, na dinâmica de inclusão/exclusão de participantes realizada a partir de processos distintos:

1) inclusão/exclusão lingüística, que o autor estuda focalizando a construção dos conceitos de comunidade, nação, áreas excluídas constituídas pelo discurso como o “leste europeu” e o “mundo mulçumano”

2) a inclusão/exclusão institucional, a exemplo da ONU, OTAN ou os critérios de inclusão no Mercosul e na Comunidade Européia;

3) a inclusão/exclusão tecnológica: de que o digital divide é o grande exemplo, juntamente com todos os casos de acesso limitado e adoção atrasada de tecnologias.

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GPC discute Geographies of Media and Communication

Começou ontem a discussão do livro “Geographies of Media and Communication” de Paul C. Adams (Wiley-Blackwell, 2009). Discutimos os capítulos de 1 a 5. Abaixo a resenha de Leonardo Branco dos capítulos de 1 a 3.

Introdução

O autor vai apresentar os quatro enquadramentos da geografia da comunicação:

Mídia no espaço – É a idéia de comunicação como infra-estrutura e as pegadas de tal infra-estrutura.

A idéia da mídia no espaço aponta a infra-estrutura da comunicação unindo várias localizações, mas também que tais elos transformam o espaço.

Espaço na mídia – Diz respeito às conexões que permitem a estabilidade da topologia social dos indivíduos. A topologia e as hierarquias sociais permanecem estáveis, mesmo com as pessoas em movimento pela a ação das mídias.

Lugares na mídia – Fala das representações dos lugares nas mídias (TV, livros, rádios). O lugar é um centro de significados.

Mídia no lugar – Um lugar é entendido como incluindo certos tipos de comunicação e excluindo outros. As regras do lugar lembram às pessoas que tipos de comunicação estão “de acordo com o lugar” ou “fora de lugar.”

Pouco explorada pelos geógrafos. A novidade deste quadrante surge de observar as comunicações não simplesmente como textos e discursos (imagens de lugar), não simplesmente como fluxos (comunicações no espaço), mas principalmente como práticas.

O Diagrama Quadrante

O diagrama não deve ser usado para encaixar. Muitos dos pesquisadores citados neste livro não podem ser claramente ligados a um quadrante específico.

Duas tensões: espaço x lugar e representação geográfica x organização geográfica.

O espaço tem sido associado pelos geógrafos a liberdade, vulnerabilidade, potencial, movimento, distância e abstração. Implica padrões e fluxos.

O lugar tem sido associado com confinamento, proteção/possessão, estabilidade, significado e o concreto. Implica território, identidade, rotina e privacidade.

Na metade superior do diagrama, o espaço e o lugar enquadram e dão forma às comunicações. Na metade inferior do diagrama, lugar e espaço, são produzidos pelas comunicações.

A Transição Comunicacional

Apesar da dominância da comunicação na geografia cultural, o conceito de comunicação permanece difuso, dentro da geografia.

Capítulo 2

Da Palavra Falada ao Alfabeto

A história da mídia é apresentada como uma série de datas: a Bíblia de Gutemberg em 1455, o telégrafo de Morse em 1844, o Windows da Microsoft em 1985, porém tais datas escondem mais que revelam.

Uma visão simplista e cronológica da mídia é míope, porque as mudanças nas mídias poucas vezes se ajustam A uma nova mídia substituindo uma mídia mais antiga.

As tecnologias e as relações sociais são co-constituídas. Tentar compreender sociedade, espaço e lugar, em conjunção com tecnologias e técnicas de comunicação.

As tecnologias se desenvolvem numa rede multidimensional de relações entre outras tecnologias, engenheiros, cientistas, segmentos do público, investidores, instrumentos financeiros, provedores de serviços, idéias, crenças, representações, governos e regulação.

Oralidade

A oralidade primária da sociedade pré-literata é uma forma de existência alienígena. A oralidade primária está agora desaparecendo.

A preservação de qualquer idéia, na oralidade primária, necessitava de repetição, requeria algum tipo de performance repetida.

A oralidade primária era caracterizada pela performance verbal e pelos gestos/ritmos incorporados da oralidade.

A Palavra Escrita

A mudança da oralidade primária para a literalidade foi lenta, mas inexorável – associada a uma gama de mídias (argila, papiro, pincel, papel e caneta) cada uma delas mobilizadas num lugar específico.

A fixação da palavra produziu uma reformulação do tempo, do espaço, do poder e da identidade.

As palavras podiam durar mais tempo, e serem disseminadas pelo espaço, servindo como meio para aumentar o controle humano sobre processos distantes.

Através da palavra fixa foi possível formar o tecido das cidades, impérios, nações e estados.

O tempo adquire uma estrutura linear, ao invés de cíclico. A escrita estabelece relações hierárquicas entre aqueles com talento para originar textos. Não é por acaso que a palavra autoridade provém da raiz autor.

Escrita Alfabética

Numa perspectiva geográfica, o alfabeto facilitava a construção de impérios:

(a) Disseminava a informação geográfica, como direções de navegação e viagem por terra.

(b) aumentava o interesse de assentamento e exploração de recursos;

(c) facilitava a administração de povos subjugados através de regras e regulamentos;

(d) disponibilizava as experiências transmitidas através do espaço e do tempo.

(e) permitia a administração de áreas colonizadas.

Capítulo 3

Da Imprensa ao Sinal Eletromagnético

A transição da escrita para a imprensa foi uma evolução, ao invés de revolução.

A imprensa acelerou o fim da oralidade primária.

O que conhecemos como meio de comunicação não é apenas uma tecnologia, mas uma rede de atores humanos, instituições sociais, tecnologias e lugares.

Imprensa, Espaço, e Ação

A impressão permite alcançar uma audiência maior espalhar-se por muitos países e muitos séculos. Dá solidez à idéia da autoridade (uma única mão e mente por trás do texto).
Antes da imprensa era a igreja a fornecedora das narrativas que estruturavam a vida e a morte para as populações.

A imprensa, não foi simplesmente uma técnica ou tecnologia, foi um conjunto de atividades que impeliu o recrutamento de vários tipos de actantes em redes heterogêneas.

A maçonaria, seitas secretas e o mercado negro auxiliaram a construir a rede; as conexões entre editores, impressores e livreiros.

O intelectual havia emergido como uma nova autoridade, demonstrando o poder da cidadania, do pensamento livre e da imprensa. A fonte primária de autoridade moral e intelectual mudou dos clérigos para os intelectuais.

O Telégrafo e a Invenção da Transmissão

Enquanto comunicação antes implicava transporte, as novas tecnologias dissociaram comunicação e transporte, tornando-os separados.

As redes telegráficas incluíam atores oficias, como companhias ferroviárias, plantadoras de grãos, investidores, e serviços de fiação, bem como atores não-sancionados, como criminosos, vigaristas, e amantes.

O telégrafo era visto a partir de “uma visão essencialmente religiosa da comunicação ao ligar as pessoas de toda parte, foi anunciado como a realização da Irmandade Universal dos Humanos Universais”.

O Telefone e os Conflitos Territoriais

O telefone foi empregado através de uma rede de atores, associado a cientistas, patentes, laboratórios e eletricidade.

Nem a viagem nem a mobilidade diminuíram com o surgimento do telefone. Para cada viagem evitada por causa da troca de comunicação, mais viagens eram geradas, porque as pessoas ficavam envolvidas com mais profundidade nos assuntos distantes.

Sem o telefone, um grande numero de mensageiros teria que operar nos escritórios; construir altos edifícios, com o necessário número de elevadores e escadas, seria simplesmente algo sem sentido.

O telefone permitiu a forma física do arranha-céu e a expansão das áreas suburbanas. O telefone reduziu os custos econômicos e sociais de construir para fora e para cima, e favoreceu a formação das grandes cidades.

Rádio

Experimentos de hobbyistas, comunicações de navio a costa e usos militares eram predominantes quanto ao uso do rádio antes dos anos 1920.

Estas aplicações concebiam o rádio como uma mídia ponto-a-ponto, porém a tecnologia estabilizou-se como uma mídia de massa com a transmissão de eventos de esporte, eleições, performances musicais e conteúdos religiosos.

Os educadores americanos promoviam a idéia de que a missão do rádio era a educação dos cidadãos.

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Lugares da Sociabilidade

Seminário sobre comunicação e tecnologias digitais acontece na Facom/Ufba

Acontece, entre os dias 13 e 15 de outubro, o seminário Lugares da Sociabilidade, primeiro seminário de Pesquisa do Grupo de Pesquisa em Cibercidades (GPC) e do Grupo de Pesquisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS) que discutirá diversos temas ligados a comunicação, tecnologias e práticas sociais.

As mesas estão divididas em temáticas como Cartografia colaborativa; Game Studies; Dispositivos Móveis e Redes Sociais; Jornalismo Móvel e Mídia Locativa; Interação e Redes Sociais; e Dispositivos Móveis e Jornalismo Digital.

O evento ainda contará com conferência de abertura, realizada pelo Prof. Dr. Vinicius Neto, da Universidade Federal Fluminense (UFF), que dará a palestra “Prática, Comunicação e Espaço: Uma reflexão sobre a materialidade das estruturas sociais”. Confira a programação completa através deste link.

O que: Lugares da Sociabilidade: I Seminário de Pesquisa do Grupo de Pesquisa em Cibercidades (GPC) e do Grupo de Pesquisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS).

Quando: De 13 a 15 de outubro, das 18h às 22h.

Onde: Auditório da Faculdade de Comunicação da Ufba (Campus Ondina)

Inscrições gratuitas no Nicom (segundo andar da Facom/Ufba), através do telefone (71) 3283-6182 ou do e-mail nicom@ufba.br

Mais informações: http://gpc.andrelemos.info/blog/?page_id=21

Nicom: (71) 3283-6182 ou nicom@ufba.br

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Programa 2010.2

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
FACULDADE DE COMUNICAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICÇÃO E CULTURA CONTEMPORÂNEAS

GPC – GRUPO DE PESQUISA EM CIBERCIDADE
2010.2

Coordenador – Prof. Dr. André Lemos
Reuniões – Quinta, das 14 as 18h
Local – Sala 2 do PPGCOM/Facom/UFBa

Informações:

http://gpc.andrelemos.info/blog

http://twitter.com/cibercidade

O Grupo de Pesquisa em Cibercidade (credenciado no diretório de pesquisa do CNPq) faz parte do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da FACOM-UFBa. O grupo é coordenado pelo professor André Lemos e existe desde 2000. O tema de discussão tem sido Comunicação, Mídia, Tecnologia, Espaço Urbano e Mobilidade. O grupo agrega professores, estudantes de graduação e pesquisadores em mestrado e doutorado no PPGCCC/Facom-UFBa. O GPC possui, desde 2009.2, um Laboratório de Mídias Móveis composto de equipamentos disponíveis aos pesquisadores (um celular Android, um data show, um GPS Garmin, uma câmera Mini-DV Sony, dois netbooks, um notebook Dell, uma impressora e um scanner de mesa, 3 roteadores Wi-Fi, livros sobre a temática do grupo). O GPS realizou também as pesquisa: Wi-Fi Salvador e Vigilância na UFBa (informações no site)

Pesquisadores Participantes

Professores
Prof. Dr. André Lemos, coordenador
Prof. Dr. José Carlos Ribeiro

Doutorandos
André Holanda
Fernando Firmino
Luis Adolfo
Macello Medeiros
Renata Baldanza
Thiago Falcão

Mestrandos
Diego Brotas
Leonardo Branco
Paulo Victor

Graduandos
Danilo Pestana
Grabiela Baleeiro
Leonardo Pastor
Nelson Oliveira

Atividades para 2010.2

Reuniões Semanais. Atividade regular do GPC com todos os pesquisadores. Cada pesquisador fica responsável por uma sessão. Nesse semestre discutiremos três livros, a saber (ver calendário mais abaixo):

1. Reassembling the Social – Bruno Latour
2. Geographies of Media and Communication – Paul C. Adams
3. Augmented Urban Spaces – Alessandro Aurigi e Fiorella De Cindio

Interseções. Seminários mensais com convidados externos. O GPC realizará encontros mensais abertos a toda a comunidade da UFBa e ao público em geral.

Seminário Internacional. Preparação do Seminário internacional – “Mídia, Espaço e Tecnologia”, em agosto de 2011 (data a ser confirmada). Keynote Speakers e Call for Papers.

Seminário de Pesquisa GPC/GITS – 13, 14 e 15 de outubro, mestrandos e doutorandos. (4p/dia). Apresentação pública dos projetos em desenvolvimento pelos membros do GPC e do GITS. Atividade de extensão gratuita e aberta à comunidade. Um palestrante nacional.

Atualização do Site e do Twitter. Atividade semanal.

Wi-Fi Salvador – Continuidade e desdobramentos. Wi-Fi Salvador no Android – Inventor!

Programa de Reuniões

12/08 – Apresentação dos textos dos bolsistas PIBIC/pesquisas Vigilância e Wi-Fi Salvador
19/08 – Latour – até p. 62- Andre Holanda
26/08 – Thiago (Latour, p. 63-120)
09/09 – Zé Carlos (Latour, p. 121-172)
23/09 – Fernando (Latour, p. 173-262)
30/09 – Leonardo (Adams, 1-42)
07/10 – André (Adams, 43-107)

13, 14 e 15/10 – Seminário dos Projetos de Pesquisa de 18 às 22hs

21/10 – Luiz Adolfo (Adams, 108-166)
28/10 – Renata (Adams, 167-221)
11/11 – (Aurigi e Cindio, 1-59)
18/11 – (Aurigi e Cindio, 60-137)
02/12 – (Aurigi e Cindio, 138-234)
09/12 – (Aurigi e Cindio, 235-349)

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Reunião GPC 20.05

Na última reunião do GPC, no dia 20/05, foi apresentado por Paulo Victor o texto Place and the Power of Communication, capítulo do livro Geographies of Media and Communication, de Paul Adams. Considerado denso e de difícil compreensão pelo GPC, o texto trata de forma geral a relação entre comunicação, lugar, discursos e poder, tendo como ponto central o questionamento de como o lugar é produzido por discursos e como ele produz subjetividades. Apesar de não tratar especificamente de tecnologia, houve o esforço em fazer conexões com o tema do GPC. Entretanto, discutir espaço, lugar e tecnologia não é uma tarefa fácil nem evidente, pois é um terreno complicado.

Diversos pontos foram levantados, que serão enumerados a seguir.

- Como os discursos configuram relações com o lugar e como eles constituem o lugar, sendo independente da tecnologia, a qual também pode contribuir neste processo.

- Os mapas contendo discursos mais explícitos e hiperlocalizados.

- A ideia de que o discurso funda um lugar. O indivíduo pode absorver determinado discurso ou ser um pólo de resistência (como fundar um Brasil em um país exterior, não se “culturalizando”). Outro exemplo foram os missionários, que tiveram discursos de catequização com os índios. Alguns aderiram e outros ignoraram completamente, ocorrendo também desvios e apropriação.

- Determinados discursos só fazem sentidos em determinados lugares, a exemplo do Tibet.

- Todo lugar, com ou sem mídia locativa, estão dizendo algo. Vem de um discurso, a exemplo do urbanismo, seja ele bottom up ou top down.

- O texto aponta que não existe lugar sem comunicação, cada um tendo um tipo de comunicação. O lugar, portanto, enquadra, molda e prioriza forma de comunicação específica. Além disso, a comunicação também é constituída de lugares. Os lugares também são constituídos de representações dos lugares pela mídia. Ainda, o lugar é constituído e atravessado por fluxos comunicacionais; é performativo – pois estar no lugaar é sempre assumir uma performance em meio a tores.

- Reforçamos a ideia de que mesmo com a proliferação das tecnologias de comunicação e informação, o lugar continua tendo importância.

- Diversos autores aparecem no texto, como Marx, Althusser, Gramsci, Bakhtin (e sua ideia de carnavalização dos discursos), Lefebvre (e os três tipos de espaço – vivido, concebido e percebido) e Lacan (reflexão da criança em sua fase do espelho, no processo de concepção do mundo e de situar-se no espaço)

Um dos debates mais longos surgiu do questionamento se, nas mídias locativas, seria o lugar que geraria um discurso.  Um ponto de consenso apontou que há um discurso anterior às mídias locativas e possivelmente elas seriam uma forma de dar visibilidade aos discursos. Há o potencial de produzir discursos não-hegemônicos e de resistência, o que remete a origem do termo mídias locativas.

Outro ponto levantado por André e discutido foi a ideia de que, com as mídias locativas, há um reforço da hiperracionalização na relação com o espaço e uso das tecnologias baseadas em localização. Mas como fugir disso? Talvez essa hiperracionalização seja resultado da apropriação da tecnologia e por termos sido privados de utilizá-las por muito tempo. Um dos extremos da hiperracionalização foi relacionado ao projeto Biomapping, de Christian Nold.

Dica de leitura: Texto Cityspace, Cyberspace, and the Spatiology of Information, de Michael Benedikt, disponível em journals.tdl.org/jvwr/article/download/290/244. Defende tese que espaço é informação.

Dica de post: http://mastersofmedia.hum.uva.nl/2010/05/19/map-as-a-performative-practice/

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Interseções (30.04.10)

Na Sexta-feira, dia 30, tivemos mais uma edição do Interseções, “Bate papo sobre cibercultura com outras áreas do conhecimento”. Dessa vez, aproveitamos a passagem  por Salvador do doutor em Comunicação da PUC-RS, Eduardo Campos Pellanda, que nos fez uma visita e falou um pouco dos seus últimos trabalho na área da comunicação móvel.

Pellanda iniciou a discussão falando sobre os projetos realizados entre a sua equipe de pesquisadores da PUC-RS e o instituto MIT. O destaque foi para o projeto Locast Media, http://locast.mit.edu/civic , uma plataforma de interação entre comunicação, cibercultura, ferramentas de localização e jornalismo. Uma série de projetos ubíquos, característicos da Cibercultura em que vivemos. No site do projeto podemos conferir os trabalhos de equipe e entendermos um pouco mais sobre aquilo que aponta como a realidade do futuro das comunicações, as relações cada vez mais próximas entre os vários meios e plataformas.

Em um segundo momento, Pellanda fez uma análise do novo fenômeno de venda da Apple, o iPad. O pesquisador iniciou falando da era dos aplicativos, ou aquilo que ele chamou de “appsfera”, lançada no mercado pela Apple. Pellanda explicou que, na Web 2.0, as informações subiam para os navegadores e hoje, com os apps – de celulares, iPad, entre outros – as informações estão cada vez mais sendo transferidas para os aplicativos e que a tendência é que esse fenômeno continue a se expandir, visto o a criação dos tablets, com o iPad e outros que devem vir a surgir, e dos celulares e smartphones, que passam a dedicar os seus sitemas operacionais ao desenvolvimento dos apps, aplicativos.

Sobre o gadget da Apple, Pellanda disse que os pontos positivos do iPad compensam os negativos e a tendência é de que cada vez mais as pessoas façam uso de aparelhos como o pequeno novo sucesso da Apple.

Continuem acompanhando o site. Em breve novas discussões sobre Comunicação, Cibercultura e temas relacionados.

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GPC 29.04.10

Na reunião do último dia 29, discutimos o texto Jornalismo Participativo E Informação Hiperlocal: O papel de mashups e hashtags na construção da notícia em redes sociais, de Nelson de Oliveira e André Fabrício da Cunha Holanda.

No artigo, apresentado no Intercom 2009 e publicado na Revista Brasileira de Iniciação Científica em Comunicação Social (Iniciacom) vol.2, de 2010, os autores discutem como o uso de redes sociais e das ferramentas de localização pelas fontes e pelos jornalistas podem contribuir para o aprimoramento das práticas diárias do jornalismo. As análises são feitas baseadas nas hashtags (#) e nas mashups (marcadores de geolocalização) do Twitter. Os autores analisam, especificamente, a cobertura no Twitter das chuvas de Salvador, em maio de 2009, e um mapa colaborativo que indicava buracos nas vias públicas de Fortaleza, desenvolvido por blogueiros e usuários do Twitter.

Em resumo, a tese dos autores é a de que a partir de um relacionamento mais aprofundado entre fontes (blogueiros, twitters, cidadãos) e jornalistas, o processo de construção da notícia seria enriquecido com a participação mais efetiva das fontes em todo o processo, principalmente no que diz respeito ao jornalismo local, como nos casos analisados pelos autores.

Oliveira e Cunha finalizam o artigo afirmando que “se as funções pós-massivas são conversacionais e muito eficientes em nichos, as mídias massivas podem remediar o que acontece nestes nichos, na elaboração de um jornalismo participativo mais bem fundamentado.”

A discussão sobre o texto, no grupo, girou em torno da questão da credibilidade da notícia. Problematizamos se, a partir desse jornalismo mais colaborativo e participativo, a informação jornalística tenderia a ganhar mais, ou menos, credibilidade. Lançamos aqui, também, os questionamentos para os nossos leitores.

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Flashmob e produção de espaço: pensando a Pillow Fight 2010 em Salvador

No último dia 03/04, às 17 hs (horário de Brasília) foi realizada de forma simultânea em diversas cidades do planeta a flashmob Pillow Fight. O evento consistiu em uma grande mobilização de pessoas, aparentemente desconhecidas entre si, que “travaram” uma guerra de travesseiros em diferentes lugares do mundo. Depois de alguns minutos e muitas “travesseiradas”, a multidão se dispersou e tudo voltou ao normal. A flashmob aconteceu sábado em cidades como Pequim, Barcelona, Londres, Bruxelas, Nova Iorque, Amsterdã, etc. No Brasil, a Pillow Fight foi realizada em São Paulo, Rio de Janeiro, Rondonópolis, Manaus, Belo Horizonte, São Carlos, Poços de Caldas, Teresina, dentre outros municípios do interior e capitais de diferentes estados. Em Salvador, a batalha de travesseiros  foi feita na pista de skate do Jardim dos Namorados, no bairro da Pituba. Por aqui, a flashmob reuniu mais de cem pessoas, entre participantes e curiosos, que trocaram golpes de travesseiro por de cerca vinte minutos e depois se dispersaram.

Flashmob Pillow Fight 2010, Jd dos Namorados, Salvador

Estive por lá entre os curiosos, no sábado, analisando todos os momentos da flashmob. Enquanto observava passo a passo da dinâmica, era inevitável pensar nos eventos que foram realizados anteriormente naquele lugar e como se deu a produção de espaço em cada um dos casos. Por exemplo, lembrei-me da partida do alternate reality game The Lost Ring, ARG relacionado aos Jogos Olímpicos de Pequim, que foi disputado em 2008 na internet e em lugares de diferentes cidades do mundo, dentre eles o próprio Jardim dos Namorados, em Salvador. Assim, em meio à guerra de travesseiros na Pillow Fight, procurei pensar: como se dava a produção de espaço operada por aquela flashmob? Quais as diferenças e semelhanças de sua espacialização com a produzida em eventos anteriores realizados naquele  mesmo lugar? Utilizar a estrutura do Jardim dos Namorados como espaço para eventos não é algo novo, pois o lugar já abrigou anteriormente, além do ARG já mencionado, shows, comícios políticos, festas municipais, dentre outras atividades gratuitas para o público.

Partida do ARG The Lost Ring em 2008, Jd dos Namorados, Salvador

Para começar a discussão, que aqui será delineada de modo superficial, cabe esclarecer alguns pontos fundamentais. Penso a noção de lugar de acordo com a proposta de Michel de Certeau (1984), ou seja, trata-se da ordem segundo a qual se distribuem elementos nas relações de coexistência, implicando em uma configuração instantânea de posições e em uma ordem de estabilidade entre corpos, sujeitos e objetos. Já o espaço, segundo de Certeau, é um lugar praticado e, conseqüentemente, dotado de sentido. Assim, podemos pensar a estrutura do lugar como algo dado, seja pela ordem natural ou pela ação do homem. Já o espaço, por sua vez, é o produto das relações sociais que ocorrem em determinado lugar. Esta é a tese de Lefevbre (1991), que discute a proposta de produção social do espaço, considerando que as nossas relações sociais são sempre espaciais e o espaço pode existir a partir delas, incorporando especialmente as ações de agentes locais em associação com outros grupos. Estas atividades, segundo Lefevbre, produzem um tipo de espaço concebido como social, que é ao mesmo tempo identitário e relacionado à produção de sentido.

A partir desta breve exposição, podemos traçar uma análise da produção de espaço operada no Jardim dos Namorados durante a Pillow Fight, em Salvador. De início, é preciso reconhecer que todos os eventos apontados neste post são formas distintas de mediações e que as mídias, de acordo com o texto de André Lemos,(2009), produzem sentidos de lugar, criando formas de conhecimento e experiência local. Portanto, se a mídia infere sentido em determinada lugar, ela pode criar um espaço. Entretanto, devemos notar que os shows, comícios e festas realizadas no Jardim dos Namorados, mesmo gratuitos, foram eventos “patrocinados” por partidos políticos, instituições, empresas, etc., que buscam se aproveitar do hit, do sucesso dos artistas e pessoas que estavam se apresentando. No mesmo sentido, podemos perceber a figuração de um mecanismo de controle, o patrocinador, que em certo sentido influenciou na comunicação realizada naquele lugar. Finalmente, estes eventos foram dirigidos para as massas, que se limitavam apenas à recepção do conteúdo veiculado e produziam muito pouca informação a respeito do evento. Os shows e comícios ali realizados seguiam a lógica de baixo para cima do sistema top-down, típico da comunicação de massa.

Já o caso de Plliow Fight reflete o exatamente o lado oposto, se aproximando do que foi percebido durante o The Lost Ring. No alternate reality game, por exemplo, os jogadores usaram a internet para organizar investidas em diversas cidades do mundo, onde deveriam cumprir missões específicas para salvar pessoas presas em outra galáxia. Durante uma partida realizada em Salvador, doze jogadores foram até a pista de skate no Jardim dos Namorados e, no chão do lugar, desenharam uma espiral com nove voltas. O objetivo era percorrer todas as curvas da figura, respeitando o traçado das linhas. Toda a atividade foi gravada, editada em vídeo e compartilhada pela internet com membros de uma comunidade, que avaliavam e comparavam os resultados com o de outros grupos mundo afora. Ao final, foi possível notar a emergência de um espaço, o espaço do jogo, produzido através destas relações sociais.

Podemos pensar que, de maneira análoga ao ARG ,se deu a produção de espaço operada pela Pillow Fight. A flashmob foi organizada mundialmente pelos membros de uma comunidade virtual e todas as ações centralizadas no blog oficial, com links para paginas especificas, cada uma relacionada à cidade onde aconteceria uma mobilização. Às 17 horas (horário de Brasília), os participantes iniciaram a flashmob que, da mesma forma que um jogo, obedecia regras específicas. Por exemplo, só poderia participar quem trouxesse seu travesseiro e os golpes só poderiam ser desferidos com estes objetos.

A flashmob não teve a pretensão de tirar aproveito de hits para se promover. Também não existia premiação, a principal recompensa foi participar e compartilhar os registros, feitos pelos usuários de aparelhos com câmera, com a comunidade engajada. Este fato pode ser facilmente comprovado acessando os inúmeros vídeos disponíveis no Youtube, feitos durante a mobilização. Neste caso, toda a articulação da Pillow Fight aconteceu em sistema botton – up, de baixo para cima e não envolveu investimentos e verbas de publicidade. De novo, diferente do que aconteceu na ocasião dos shows e comícios realizados anteriormente no Jardim dos Namorados, que envolveram aportes de capital de patrocinadores para pagar o cachê dos músicos, alugar estruturas de palco, equipamento de som, etc. A presença do público não era fundamental, pois os artistas deveriam se apresentar independente de quem e quantos estivessem por lá. E a repercussão do show não ganha muito espaço na mídia, pelo contrário, o investimento é feito na sua divulgação, em diferentes tipos de mídia.

Já no caso da Pillow Fight, podemos notar que não existiram gastos consideráveis com a divulgação, que é feitas através de blogs criados gratuitamente na internet, em fóruns de comunidades virtuais e por  SMS, uma das principais ferramentas usadas para agregar pessoas à ação. Ao contrário dos shows e comícios, a presença do público foi fundamental não apenas para a atividade funcionar enquanto flashmob, mas também para registrar e compartilhar todo o material gravado. Cumpre destacar que o conteúdo destas mensagens tem um potencial considerável de reverberação na rede, pois ficam hospedados em ambientes favoráveis ao compartilhamento de dados e veiculação de comentários feitos por outros usuários. Assim, podemos pensar que o Jardim dos Namorados, durante cerca de vinte minutos, no dia 03/04/2010, tornou-se o espaço da flashmob Pillow Fight em Salvador, produzido através das relações sociais que aconteceram naquele lugar, durante a mobilização.  Criou-se instantâneamente um espaço sobre a estrutura daquele lugar que, mesmo durando pouco tempo, seus registros continuam reverberando intensamente pela internet.

Participantes na Pillow Fight 2010, Jd dos Namorados, Salvador

Fiquei imaginando: o que aconteceria se o Jardim dos Namorados oferecesse uma infra-estrutura de redes sem fio? Certamente, poderíamos constatar um numero bem maior de mensagens circulando pela rede, relacionadas àquela flashmob pois deste modo seria possível disponibilizar imediatamente as informações produzidas in loco. No mesmo sentido, o conteúdo em vídeo gravado por lá fatalmente oferecia maiores opções de perspectiva, enquadramento, além de ser personalizado de acordo com o usuário que o produziu. Em resumo, me parece inegável que as flashmobs, da mesma forma que os ARGs, comprovam que as novas mídias colocaram em jogo alternativas fascinantes para uso dos lugares e produção do espaço. Ainda estamos descobrindo o verdadeiro potencial destas atividades, que ainda são muito pouco exploradas pelas grandes empresas, para criar novos espaços sobre os lugares, a partir do uso das novas tecnologias de comunicação. Nos tempos da convergência midiática, computação pervasiva inteligência coletiva e cultura participativa, eventos como a Pillow Figh nos mostram como é possível produzir novos espaços usando tecnologia, redes e criatividade.

Referências:

De CERTEAU, M. A Invenção do Cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1984

JENKINS, H. Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2008.

LEFEVBRE, H. The Production of Space. Blackwell Publications, 1991

LEMOS, A. Cultura da Mobilidade. Trabalho apresentado na III Abciber. São Paulo: ESPM, 2009.

Fotos: Paulo Vítor Sousa (flashmob)/Tácio Lobo (ARG)

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Resenha – Reunião 25/03/2010

A reunião iniciou com uma atualização do andamento dos projetos Wi-Fi Salvador e Câmeras de Vigilância. Além disso, todos foram convidados para a apresentação do integrante do GPC e bolsista do PETCOM Leonardo Pastor, no Sessões Científicas, de seu artigo de tema Rotina jornalística e mobilidade: potencialidades de transformação do habitus profissional jornalístico a partir das tecnologias móveis. O evento ocorrerá na próxima terça-feira, 30 de março, às 11 horas, na sala 14 da Facom.

O primeiro texto apresentado foi o projeto de mestrado Mídias Locativas e Música: Produção, Consumo e Apropriação de Novas Estéticas a partir de Dispositivos Móveis, do novo integrante do GPC Diego Brotas Corrêa Felisberto.  Este tem o intuito de analisar “[...]estudos e projetos que relacionam a apropriação das mídias locativas com a elaboração de distintas maneiras de produção e consumo (compartilhamento) de música, proporcionadas por um conjunto de tecnologias, com localidade”, além de examinar como há produção de sentido e apropriação do lugar nos projetos. De forma complementar, os vídeos dos projetos Sonic CityBurro Sem Rabo – A cidade tocada(também inclusos no projeto) foram mostrados ao grupo.

Burro Sem Rabo – Oi Futuro 2006 http://hapax.com.br/performances

Levantou-se a necessidade de criação de uma classificação dos projetos (experiências) de mídia locativa relacionados à música e notou-se uma escassez de projetos brasileiros nesta área. Uma opção de classificação levando em consideração o papel do lugar na experiência foi sugerida pelo grupo, que teria possivelmente três tipos: um no qual o ambiente é sentido (informações do ambiente são captadas, como em Sonic City); o outro no qual o lugar transmitiria informação (a exemplo do projeto [murmur]); e, por último, uma experiência em que o lugar não exerça uma influência direta, como nos projetos de compartilhamento de música.

A discussão sobre o que é música e o que seria zumbido nestes projetos foi levantada. Os artistas dos projetos declaram que têm a intenção de ser música. Entretanto, André Lemos apontou que a música é como um produto final da experiência, que tem como objetivo maior o questionamento do uso e experiência do espaço público. Foi apontado também a necessidade de repensar os projetos sem taxá-los de novos, voltando-se para as mídias locativas analógicas. Afinal, o que há de novo são os dispositivos, que potencializam as experiências.

Questionou-se também o conceito de música móvel (GAYE; HOLMQUIST; BENHERDT; TANAKA, 2007), já que é da própria natureza ser móvel. O termo mais correto talvez fosse música em mobilidade. A ideia de que a música pode remeter a um lugar de uma experiência individual foi levantada, assim como a constatação de que ela é sempre sensível ao ambiente, uma vez que se propaga pelo ar, e só existe pelo contexto – inclusive o dispositivo (como o rádio, que em determinados lugares não sintoniza). André Lemos também lembrou que não há música sem objeto técnico, sem algum artefato, exceto quando utilizamos o nosso próprio corpo, ao cantarmos.

Mapas de crime: vigilância distribuída e participação na cibercultura, de Fernanda Bruno, foi o segundo texto discutido na reunião trazido por Leonardo Branco. O artigo “[...] identifica e problematiza as relações entre participação e vigilância na cibercultura a partir da noção de vigilância distribuída, focalizando os recentes mapas de crime disponibilizados na Internet” (BRUNO, 2009).  Este texto levantou diversos questionamentos sobre vigilância e mapas.

CITIX: http://citix.terra.com.br/index/

Uma das primeiras questões levantadas foi Qual a diferença entre Google Maps e o mapa comprado em uma banca de jornais? O grupo apontou a possibilidade de adicionar conteúdo e concluiu que, o que está em jogo nos projetos de mídias locativas de mapeamento não é a base geográfica utilizada, mas sim as informações contidas e anexadas nestes mapas.

Outra questão levantada foi a relação entre estrato social e produção de conteúdo nos mapas colaborativos. Quem participa destes projetos e faz o mapa conseguiria representar todos os estratos sociais ou só seria feito pela classe média, quem teria acesso? Então qual é discurso veiculado, principalmente relacionado à vigilância e áreas perigosas (nos mapas de violência)? Foi levantado de que em tese não há barreiras para a colaboração nos mapas e que também deve ser levado em conta que nunca houve foi possível construir mapas da maneira como é feito hoje. Além disso, o processo de mapeamento só era feito por instituições ou especialistas e hoje o cidadão comum pode criar estes mapas.

A diferença entre colaboração e participação também rendeu muitas discussões. Em resumo, o processo de colaboração exige a transformação do produto final, ou, segundo Bruno, “[...] a produção direta de informações por parte dos usuários [...]”. Já na participação identifica-se um feedback, ou um comentário adicional ao produto. Como exemplo, um comentário em um blog seria participação e colocar um post seria colaboração. Vale ressaltar que nem tudo que é participativo é colaborativo e vice-versa.

O tema vigilância e seu conceito foram muito discutidos e considerados complexos, além do grupo reconhecer que não há conclusões concretas e há muito o que ser lido e discutido. André Lemos apontou que o termo vigilância distribuída leva ao enfraquecimento do conceito de vigilância, que, segundo ele, deve continuar forte. Além disso, há uma tendência de considerar tudo é vigilância e no texto, muitas vezes, vigilância é tida como sinônimo de monitoramento (ou sempre acompanha esta palavra). Para Bruno (2009), vigilância é “[...] a atividade de observação sistemática e focalizada de indivíduos, populações ou informações relativos a eles, tendo em vista extrair conhecimento e intervir sobre os mesmos, de modo a governar suas condutas ou subjetividades”.

Já segundo Lemos, existe controle, monitoramento e vigilância (todos distintos entre si), conceitos que podem ser conferidos neste artigo. De maneira resumida, o primeiro significa registro, o segundo, registro no tempo e o terceiro, o controle e o monitoramento com vistas a evitar algo ou com vistas a um fim específico. No caso da vigilância distribuída, há monitoramento e controle e pode ter ou não vigilância (e se tiver, esta é feita a posteriori). Ainda, Lemos acredita que toda vigilância é controle e monitoramento, mas nem todo controle e monitoramento é vigilância, discordando com o texto. Por outro lado, Lemos também identifica um problema etimológico já que, ao contrário do inglês e do francês, não há palavras que diferenciem o “estar atento” do “estar atento com vistas a evitar algo”.

O caso dos reality shows foi discutido, e concluiu-se que há uma observação sistemática e focada, na qual a pessoa sabe que está sendo observada. Além disso, há um gerenciamento de conduta (remetendo à definição de vigilância de Bruno), que é exemplificada pelo voto para o participante ficar ou sair. Ou seja, neste caso, há vigilância. Os radares da SET também foram considerados vigilância, inclusive por gerenciarem as condutas para manter a normalidade. E as câmeras de vigilância do campus podem ser consideradas de fato de vigilância se forem vistas pelo aspecto patrimonial

Por fim, a ideia de vigilância distribuída foi confrontada com a ideia de panóptico de Foucault, já que nesta somente alguns são vigiados e naquela, qualquer um interessa, caracterizando uma vigilância descentralizada e “mais democrática”. Porém, há um nível de centralização e hierarquia, a exemplo de quem detém os dados.

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Resenha – Reunião 18/03/2010

A reunião iniciou com uma breve discussão sobre a pesquisa sobre vigilância, coordenada pelo Prof. André Lemos. A pesquisa busca analisar os desdobramentos da implantação de câmeras de vigilância no campus da Federação da Universidade Federal da Bahia (UFBa). O formulário para mensuração das possíveis reações de alunos, professores e funcionários que convivem com as câmeras neste campus está disponível clicando aqui.

Então, o novo membro do grupo, Paulo Victor Sousa, apresentou seu projeto de mestrado, Mapas colaborativos: Vigilância Distribuída e Reescritas da cidade, sob a orientação do Prof. André Lemos. O projeto visa analisar a construção dos mapas colaborativos e suas implicações sociais no espaço urbano, tomando como objeto de estudo o mapa “#buracosfortaleza”, elaborado por cidadãos de Fortaleza (CE) durante os estragos das chuvas no primeiro semestre de 2009.


Mapa colaborativo #buracosfortaleza

Discutiu-se o medo dos mapas serem apagados (razão pela qual o mapa Wi-Fi Salvador, iniciativa do GPC de mapeamento de hotpots na cidade que voltou a ser atualizada recentemente, exige um filtro – ou seja, a colaboração não se dá por via direta, mas através de sugestão via e-mail ou twitter). Acrescentou-se ainda que, no caso da ferramenta de mapas colaborativos se popularizar de fato, pode haver um conflito de interesses na elaboração destes mapas (a exemplo dos mapeamentos de crimes, como o Wikicrimes), com a possível apropriação de imobiliárias, que não se interessariam na visualização de crimes em áreas em que constroem.

Detectou-se uma abordagem do tema “vigilância” confusa e talvez ainda prematura. Para Sousa, os mapas funcionariam como uma forma vigilância do público sobre os problemas, algo que o grupo questionou. Questionou-se ainda se esses mapas constituiriam o que a Geografia chama de cartografia, concluindo-se que eles não constituiriam, cientificamente falando, novas cartografias, por utilizarem uma base pronta disponibilizada pelo GoogleMaps. André Lemos, porém, destacou que todo mapa é uma construção, mesmo os científicos, e reafirmou a importância das iniciativas em questão, como formas inovadoras de escrever sobre o espaço. Por fim, a conclusão sobre o projeto é que falta ainda analisar o lado comunicacional dos mapas, em vez de enfatizar apenas o potencial transformador do espaço urbano que eles possuem.

Em seguida, André Holanda apresentou seu projeto de Doutorado, A pele da Cibercultura: As interfaces baseadas na manipulação direta e a Realidade Aumentada na Comunicação Social, que aborda as mudanças nas interfaces de acesso à informação no ciberespaço, com ênfase na apropriação jornalística das tecnologias. Visa, desta forma, saber como a interface do dispositivo de acesso vai funcionar, sem, entretanto, fixar-se em um dispositivo em especial, para que a pesquisa não se torne ultrapassada no espaço de tempo até a defesa da tese. Segundo Holanda, seu projeto busca analisar o que ele chama de “realidade aumentada” – mas que não corresponde ao conceito convencional de camada acessível através de dispositivos como celulares, permitindo visualizar, através da base física, a camada informacional. O uso do termo, portanto, mostra-se problemático, se não analisado como uma desconstrução do conceito, demonstrando que a realidade aumentada sempre existiu.

iPad, da Apple, é uma das novas interfaces

As outras críticas principais dizem respeito a falta de iniciativas de realidade aumentada no jornalismo que não sejam meramente lúdicas (a exemplo da visualização da Torre Eiffel no site do Estadão, ao se direcionar a webcam sobre uma área específica do jornal), e de hipóteses sólidas de pesquisa, aplicáveis através de objetos mais práticos.

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Vigilância na UFBA

Clique na imagem para ser redirecionado à pesquisa.

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Vigilância

O GPC realiza uma pesquisa sobre as câmeras de vigilância na UFBa. Se você é professor, aluno ou funcionário, por favor, responda esse rápido questionário. Ele não tomará mais do que 3 minutos do seu tempo.

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Reunião 11-03-10

Na reunião passada, dia 11/03, o GPC iniciou as discussões dos textos do semestre. Luiz Adolfo e Tiago Falcão apresentaram seus artigos que serão enviados à Compós deste ano.

De acordo com Luiz Adolfo de Andrade, Games em terceiro lugar. Discutindo jogos eletrônicos, experiência urbana e sociabilidade, “busca compreender os modos pelos quais a comunicação pode se relacionar com a experiência urbana através das novas tecnologias, acentuando o potencial de sociabilidade oferecido pelos terceiros lugares.

O conceito de Terceiro Lugar é datado em 1982 por Oldenburg & Brisset. De acordo com os sociólogos a expressão descreve uma modalidade de lugar externa ao lar e ao local de trabalho. De acordo com Andrade, “ trata-se dos bares, cafés, museus, praças, parques, dentre outros lugares que oferecem elementos necessários para a descarga do stress diário, provendo ao seu usuário um senso de exclusividade e pertencimento através da sociabilidade e da comunicação, sem a rigidez das normas e regras que existem nos clubes, por exemplo”.

O autor relaciona os terceiros lugares à experiência dos jogadores dos  Alternate realyte games (ARGS). No decorrer do artigo, Luiz Adolfo tenta mostrar como o game locativo amplia a experiência do jogador com o lugar no qual os jogos são praticados.

Na discussão do GPC, debatemos a noção de Terceiro Lugar proposta pelo autor. Para o grupo, este conceito não seria o apropriado para a tese de Luiz Adolfo porque, por exemplo, bares, cafés, museus e praças não fazem parte do mesmo ambiente. Uns são públicos, outros semi públicos e outros privados.

Ao levantar a tese de que no terceiro lugar as pessoas estariam mais livres do que em outros ambientes, entendendo o terceiro lugar como um local desprovido de “rigidez de normas”, o autor, de acordo com o grupo, pode ter cometido equívocos com relação a esta noção de liberdade nos terceiros lugares. Assim como com a própria noção de Terceiro Lugar, talvez determinista, resumindo todo um contexto social humano em apenas três tipos de lugares.

O grupo concordou com as teorias já amplamente discutidas pelos Estudos Culturais sobre a existência dos vários lugares compondo as relações humanas, e não somente três.  O artigo ainda está em construção e, de acordo com Luiz Adolfo, deverá ser aprimorado com base nos comentários do GPC.

Na segunda discussão do dia, Tiago Falcão, com ESTRUTURAS DE AGENCIAMENTO EM MUNDOS VIRTUAIS. Mundos Ficcionais como Vetores para o Comportamento Social In-Game, analisa a função da narrativa na produção de significados no Massive Multiplayer Online Role-Playing Game – MMORPG – World of Warcraft.

Falcão relaciona a teoria dramatúrgica de Erving Goffman, quando diz que as ações humanas dependem do contexto de interação, e o conceito de agenciamento, de Arlindo Machado (2007), para dizer que nos vídeo games os interatores experimentam a sensação que suas decisões interferem na narrativa dos jogos. Falcão tenta problematizar que, ao mesmo tempo no qual os jogadores dos MMORPGS, como World of Warcraft, tem certo poder de tomada de decisão, não podemos concordar com a ideia de agenciamento pleno, e sim com a ideia de um agenciamento falsificado, ou como diz Krzywinska (2009), uma “agência ilusória”, onde, mesmo com um certo poder de decisão dentro da narrativa de um jogo, o interator sempre enfrentará os limites propostos pelo game designer, sempre irá em lugares onde alguém já foi. Falcão reconhece também que, apesar de tais limitações, “é óbvio que  o ambiente online dá vazão a várias formas de apropriação”, como no caso da cultura dos MUDs,  utilizando o ambiente virtual do jogo para uma infinidade de apropriações diferentes da narrativa original. Contudo, salienta novamente, até estas apropriações fora do contexto comum do jogo estão sempre previstas pelos desenvolvedores do ambiente virtual dos Massives Multiplayers Online Role-Playing Games.

Na discussão com o grupo, alguns apontamentos com relação ao conceito de Agência foram levantados, ficando algumas dicas para Tiago Falcão  aprimorar o seu artigo antes do envio à Compós – 2010.

Continuem acompanhando o GPC online, em breve novas resenhas de reuniões, notícias, artigos e assuntos discutidos pelo grupo.

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GPC 2010.1

Squared-Time from andre lemos on Vimeo.

O Grupo de Pesquisa em Cibercidades inicia suas atividades no semestre 2010.1 com algumas novidades. A primeira reunião do semestre, quinta-feira passada, dia 04/10, iniciou com o vídeo acima, Squared-Time, de André Lemos, trazendo um pouco dessa nova relação espaço-temporal que vivemos na cibercultura, uma reflexão lúdica e artística sobre a relação do homem com os meios de comunicação.

Além das discussões dos projetos individuais de cada um dos membros do grupo, neste semestre discutiremos os livros abaixo:

GOGGIN, G.; HJORTH, L. (eds). Mobile Technologies – From Telecommunications to Media. Nova Iorque: Routledge, 2008.

WATKINS, S. Craig. The Young And The Digital: What The Migration To Social Network Sites, Games, And Anytime, Anywhere Media Means For Our Future. Hardcover,2009.

CONNELL, J.; GIBSON, C. (ed). Soundtracks. Popular music, identity and place. Nova Iorque: Routledge, 2003.

COULDRY, N.; MCCARTHY, A. (ed). Mediaspace: Place, Scale and Culture in a Media Age. Nova Iorque: Routledge, 2004.

GOGGIN, Gerard. Cell Phone Culture: Mobile technology in everyday life. Nova York: Routledge, 2006.

GREENFIELD, Adam. Everyware: The Dawning Age of Ubiquitous Computing. Estados Unidos: New Riders, 2006.

KATZ, J.E.; AAKHUS, M. (ed). Perpetual Contact: Mobile Communication, Private Talk, Public Performance. Reino Unido: Cambridge University Press, 2002.

SOUZA E SILVA, Adriana de.; SUTKO, Daniel M. (eds.) – Digital Cityscapes Merging Digital and Urban Playspaces. New York, Bern, Berlin, Bruxelles, Frankfurt am Main, Oxford, Wien. Hardcover, 2009.

WOOD, D. The Power of Maps. Nova Iorque: The Guilford Press, 1992.

Continuem acompanhando o site. Em breve novidades, notícias e artigos sobre comunicação, tecnologia e outros assuntos discutidos no GPC.

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Livro discute Comunicação e Mobilidade


Saindo agora da editora o livro “Comunicação e Mobilidade. Aspectos socioculturais das tecnologias móveis de comunicação no Brasil”, editado pela EDUFBa, Salvador, 2009 (ISBN – 978-85-232-0658-1), organizado por André Lemos e pelo Fabio Josgrilberg com textos de Eduardo Pellanda, Sérgio Amadeu, Gilson Schwartz, Fernando Firmino, Lucas Bambozzi, Lucia Santaella, Fernanda Bruno, além dos organizadores. O livro deve estar em breve nas livrarias. Agradecemos a todos os autores, ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, o Wi. Journal of Mobile Media, e a Edufba pelo belo trabalho de edição e revisão.

Abaixo texto da orelha e o sumário do livro:

O livro Comunicação e Mobilidade – Aspectos Socioculturais das Tecnologias Móveis no Brasil, organizado por André Lemos (UFBA/CNPq) e por Fábio Josgrilberg (Metodista, SP), oferece ao leitor uma coleção de artigos que traçam um panorama completo e atual da comunicação móvel no Brasil. Os artigos abordam diversas temáticas relevantes para a compreensão complexa do fenômeno, como a relação das tecnologias móveis de comunicação com o corpo, a cidade, a vigilância, a arte, o jornalismo, as mídias locativas e a inclusão digital. Os artigos foram originalmente publicados em inglês na revista eletrônica canadense “Wi – Journal of Mobile Media” (http://wi.hexagram.ca), em julho de 2009, e é a primeira contribuição brasileira no campo a ter uma projeção internacional.

A obra está inserida no contexto atual da computação móvel e ubíqua, oferecendo ao leitor uma visão geral do impacto das redes sem fio e dos telefones celulares no Brasil. Escrito pelos mais importantes pesquisadores do tema na área das ciências sociais aplicadas no país, o livro faz uma radiografia das múltiplas apropriações dos dispositivos móveis mostrando a sua influência nas relações sociais, econômicas, políticas e culturais. Comunicação e Mobilidade é leitura obrigatória para pesquisadores, estudantes de graduação e interessados em compreender os rumos e as perspectivas das tecnologias de comunicação móvel e seus usos no Brasil.

Sumário

Apresentação…………………………………………………………………………………………07
André Lemos, Fabio Josgrilberg

Comunicação móvel no contexto brasileiro……………………………………………..11
Eduardo Campos Pellanda

Redes municipais sem fio: o acesso à Internet e a nova agenda da cidade……19
Fabio B. Josgrilberg

Espectro aberto e mobilidade para a inclusão digital no Brasil.……………………..37
Sérgio Amadeu da Silveira

Identidade, valor e mobilidade: Motoboys em São Paulo……………………………….51
Gilson Schwartz

Tecnologias móveis como plataformas de produção no jornalismo…………………..69
Fernando Firmino da Silva

Arte e Mídias locativa no Brasil………………………………………………………………89
André Lemos

Aproximações arriscadas entre site-specific e artes locativas……………………….109
Lucas Bambozzi

Revisitando o corpo na era da mobilidade………………………………………………………123
Lucia Santaella

Vídeo-vigilância e mobilidade no Brasil.…………………………………………………………137
Fernanda Bruno

Sobre os autores..……………………………………………………………………………………………153

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Interseções

O Grupo de Pesquisas em Cibercidades do Programa de Pós Graduação em Comunicação e Culturas Contemporâneas realiza no dia 16 de outubro, às 14h, mais um Interseções, bate-papo interdisciplinar sobre tecnologias de comunicação e o espaço urbano. Com o tema Corpo e Cidade, as convidadas desta edição são Paola Berenstein Jacques (Arquitetura/UFBA) e Fabiana Britto (Dança/UFBA).

Os textos para o debate estão disponíveis aqui:

Corpografias Urbanas (texto principal)
Elogio aos errantes
Internacional Situacionista

Paola Berenstein Jacques

Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq – Nível 1D
Possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1990), especialização em Teoria e Projeto de Arquitetura e Urbanismo (CEAA) – Ecole d’Architecture de Paris Villemin (1993), mestrado em Filosofia da Arte (DEA) – Universite de Paris I (Pantheon-Sorbonne) (1994), doutorado em História da Arte e da Arquitetura – Universite de Paris I (Pantheon-Sorbonne) (1998) e pós doutorado no Centre National de la Recherche Scientifique (LAIOS) (2006). Atualmente é professora da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (FAUFBA), vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (PPG-AU/FAUFBA), pesquisadora associada ao Laboratoire Architecture/ Anthropologie (LAA) da Ecole d’Architecture Paris La Villette (ENSAPLV). É autora dos livros: Les favelas de Rio (Paris, l’Harmattan, 2001); Estética da Ginga (Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2001); Esthétique des favelas (Paris, l’Harmattan, 2003); co-autora de Maré, vida na favela (Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2002) ; organizadora de Apologia da Deriva (Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2003), Corps et Décors urbains (Paris, l’Harmattan, 2006), e Corpos e cenários urbanos (Salvador, Edufba, 2006).

Fabiana Dultra Britto

Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Dança da Universidade Federal da Bahia. Possui graduação em Dança pela Universidade Federal da Bahia (1987), Mestrado em Artes pela Universidade de São Paulo (1993) e Doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2002). Atua como crítica e curadora de dança, consultora e orientadora de projetos coreográficos. Lidera o grupo de pesquisa Laboratório Co-adaptativo que investiga metodologias e procedimentos de articulação entre pesquisa artística e acadêmica em dança. Coordena a pesquisa LabZat contemplada pelo edital MCT/CNPq 50/2006. Como docente, atua na área de Artes, com ênfase em Teoria, História e Crítica de Dança e interesse pelos temas de co-evolução, processos investigativos, experiências de articulação interdisciplinar, historiografia, processos de mapeamento, análise e difusão de producão artística em dança.

O evento é gratuito e aberto a toda comunidade da UFBA.

O quê: Interseções – bate-papo com Paola Berestein Jacques e Fabiana Britto

Quando: 16 de outubro, às 14h

Onde: Sala 02 do Pós Com, 2º andar da Faculdade de Comunicação da UFBA

Realização: GPC – Grupo de Pesquisa em Cibercidades do PPGCCC/UFBA – Programa de Pós Graduação em Comunicação e Culturas Contemporâneas – Facom/UFBA

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Livro Cultura Digital.BR disponível para download

livro-cultura-digital

Está disponível na web para download o livro Cultura Digital.BR. Trata-se de uma série de entrevistas com os principais especialistas em cibercultura ou cultura digital organizado por Rodrigo Savazoni e Sérgio Cohn.  Para os organizadores  o livro tem a pretensão de  “estimular a rede a refletir sobre os desafios contemporâneos. A partir de conversas abertas com pensadores de diversas áreas do conhecimento, procuramos mapear as principais questões que circundam a cultura digital. Trata-se da abertura de um diálogo.”

Entre os entrevistados estão: Alfredo Manevy, André Lemos, André Parente, André Stolarski, André Vallias, Antonio Risério, Bernardo Esteves, Claudio Prado, Eduardo Viveiros de Castro, Eugênio Bucci, Fernando Haddad, Franklin Coelho, Gilberto Gil, Guido Lemos, Hélio Kuramoto, Jane de Almeida, Juca Ferreira, Ladislau Dowbor, Laymert Garcia dos Santos, Lucas Santtana, Marcelo Tas, Marcos Palacios, Ronaldo Lemos, Sergio Amadeu e Suzana Herculano-Houzel.

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Narrativa transmidiática e as multiplataformas

Reportagem do programa Mundo S.A da Globo News destaca a narrativa transmidiática na indústria do entretenimento. O conceito está presente no livro “Cultura da Convergência” de Henry Jenkins (leia resenha de Luiz Adolfo do GPC).  Como complemento leia também a entrevista com o analista de mída Geoffrey Long sobre narrativa transmidiática publicada no Observatório da Imprensa.


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Bate papo com o Prof. Clímaco Dias, ontem dia 10 no “Encontros do GPC”.

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Encontros do GPC

O Grupo de Pesquisa em Cibercidades, GPC, promove amanhã, dia 10 de setembro, às 14h, na sala 02 do Pós-Com, um bate papo com o professor da UFBA Clímaco Dias. O debate ficará em torno de temas relacionados ao espaço urbano e às novas tecnologias de comunicação. O evento é gratuito e aberto a toda a comunidade da UFBa.

O quê: Encontros do GPC – Bate papo com Clímaco Dias

Quando: 10 de setembro, às 14h

Onde: Sala 02 do Pós Com, 2º andar da Faculdade de Comunicação da UFBa

Realização: GPC – Grupo de Pesquisa em Cibercidades

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Reunião do GPC – Quinta-Feira, 03 de setembro de 2009

Neste semestre, o Grupo de Pesquisa em Cibercidades está discutindo o Handbook of Mobile Communication Studies, editado por James E. Katz. O artigo Always-On, Always-On-You: The Tethered Self (encontrado em PDF aqui e aqui – links do site do MIT), de Sherry Turkle, foi apresentado na última quinta-feira pelo mestrando Thiago Falcão.

O texto trata da relação entre o corpo e a tecnologia, com ênfase no telefone celular, e do conseqüente processo de reembodiment (o aprender a lidar com o próprio corpo rodeado de artefatos) e desembodiment (o suposto “desaparecimento” do corpo ao “entrar” em espaços computacionais), nos quais a computação ubíqua desempenharia um papel notório. A projeção psicológica e construção do eu (self) é, assim, problematizada com o uso da tecnologia.

A autora defende que há uma vida dentro e fora da tela, isto é, mundos separados – um online e outro offline, além da existência de um sujeito amarrado (“tethered”, em tradução livre e consensual do grupo) a esses mundos, aos artefatos e às pessoas, games ou sites que atingimos através deles. O resultado seria uma co-presença contínua, pois aonde quer que o sujeito vá, ele sempre estará presente em outro lugar.

As fronteiras e definições em espaços públicos e privados são questionados por Turkle, além das fronteiras borradas entre trabalho e vida social. O suposto processo de virtualização e ausência “física” ao falar no celular em espaços públicos seria, para a autora, resultado do desembodiement das pessoas ao redor.

De acordo com o texto, nós fazemos parte daquilo que Turkle chama de “always-on/always-on-you”, ou seja, a dependência de artefatos tecnológicos, neste caso o telefone celular, que nos possibilita estarmos fisicamente ausentes de um determinado local, mas, ao mesmo tempo, um “estar no celular”, um artefato tecnológico que faz parte de uma reconfiguração com o espaço e o tempo e possibilita o estar em mais de um local simultaneamente, o estar online e offline, uma co-presença.

Outro caso de virtualização é relatado pela autora, que conta sua viagem a Paris com sua filha. Segundo Turkle, sua filha não teria se desconectado emocionalmente e socialmente de casa e, por isso, não aproveitou a viagem, pois estava sempre mandando mensagens de texto para amigos. A autora reconhece, porém, que as mensagens, vinculadas a percepções sobre a viagem, constituiriam um diário de viagem a ser recuperado posteriormente.

Algumas questões e observações foram levantas durante a exposição:

  • A idéia de corpo ausente e existência de mundos separados, trazida pela autora, é datada. Uma observação, porém, é de que a cobertura midiática sobre tecnologia insiste em tratar a conexão como escape do mundo “real”, ou seja, desconectado.

  • O termo tethered (preso por rédea), por sua vez, é interessante, pois transmite a idéia do ser “amarrado” que, entretanto, pode se movimentar. O ser está amarrado aos dispositivos, os quais estão desamarrados (sem fio) na rede.

  • A idéia do desembodiment em espaços públicos remete a idéia de desatenção civil (Giddens) e ao outro generalizado (Mead).

  • Realmente há um afastamento do mundo real? Na verdade, existiriam duas regiões (uma de frente e uma de fundo) e o ser lida com ambas ao mesmo tempo com a computação ubíqua. Talvez os games sejam a única instância em que ainda há uma diferença entre mundo real e virtual, a atitude de “entrar” em um mundo virtual.

  • O fato da filha da autora estar constantemente enviando SMS não significa que ela não está dando importância à viagem ou observando o local – pode tanto estar alienada quanto relatando a viagem, comparando com o lugar de origem. Ela poder ter outra subjetividade e outra forma de entrar em contato com o espaço.

  • Os contatos hoje parecem ser, de fato, muito mais pontuais e menos complexos. Mas há, na argumentação de Sherry, um tom nostálgico, como se em sua adolescência as conversas fossem sempre longas e reflexivas – o que pode não ser verdade. A atual cultura da conversação, na verdade, pode criar ou aumentar a possibilidade da uma comunicação plena, algo que, para Niklas Luhmann (com ou sem tecnologias móveis), seria improvável a partir do momento que se considere a comunicação como um engajamento de consciências, ou seja, ainda não é possível ter certeza se o que o outro “recebe” está em perfeita sintonia com o que eu “emito”.

Veja também o vídeo assistido na reunião: Kevin Kelly: prevendo os próximos 5,000 dias de web, neste link.

Indicações

- Livro: João do Rio – A alma encantadora das ruas.
- Livro: George Myerson – Heidegger, Habermas and the mobile phone

(Resenha por Camila Queiroz, Egideilson Santana e Frederico Fagundes)

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GPS e câmeras para monitoramento de assaltos a ônibus

Câmeras de vídeo, GPS  e mapas para monitoramento dos assaltos a ônibus em Fortaleza.

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Espaço

Exposição do Rumos Itaú Cultural em Salvador discute o espaço. Interessa a quem quer pensar as cidades, os espaços e as tecnologias. Abaixo síntese e programa de conferências.

Espaço em Relação: Fluidez e Simultaneidade

Obras selecionadas pelo programa Rumos Artes Visuais 2008-2009 desembarcam em Salvador no dia 12 de agosto. A exposição Espaço em Relação: Fluidez e Simultaneidade é a proposta da curadora Christine Mello e dos assistentes Armando Queiroz e Clarissa Diniz. Não se trata de apenas reconhecer o surgimento de novos espaços a partir do movimento da sociedade. A nova percepção sensorial das paisagens tem modificado até a função do espaço diante da cultura digital.

PROGRAMAÇÃO

Abertura: 12 de agosto (quinta), 19h
Visitação até 13 de setembro de 2009, de terça a domingo 13h às 19h e aos
Sábados das 13h às 21h.

Seminário Arte e Geografia: Desterritórios Contemporâneos
Dia 13 agosto (quinta), às 19h, com Caetano Dias, Christine Mello e Rubens de Toledo Junior. Mediação: Clarissa Diniz

Seminário Arte e Geografia: o Espaço Social
Dia 14 agosto (sexta), sexta, às 19h, com Clarissa Diniz, Climaco Dias e Daniel Lisboa. Mediação: Christine Mello.

Encontro com Artistas
Dia 13 agosto (quinta), às 14h30 com Fabrício Lopez, Gabriel Netto e Mergulho. Mediação: Armando Queiroz.

Encontro com Artistas
Dia 14 agosto (sexta), às 14h30 com Grupo Empreza, Letícia Ramos e Shima. Mediação: Armando Queiroz.

Entrada franca
informações
71 3117 6139
www.mam.ba.gov.br | mam@mam.ba.gov.br

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Edição especial sobre Comunicação e Mobilidade

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Acaba de ser publicado o número especial do Wi: Journal of Mobile Media sobre o Brasil com a temática Comunicação e Mobilidade. Abaixo todos os artigos disponíveis para leitura:

WI BRASIL: AN INTRODUCTION
It is a great pleasure to present Wi: Journal of Mobile Media’s third issue. What differentiates it from previous issues is its focus on a single country, namely, Brazil. More importantly, with views, cases and theoretical discussions made by Brazilian researchers and artists.

MOBILE COMMUNICATION: THE BRAZILIAN PARADOX
By Eduardo Campos Pellanda

Cell phones are one of the icons of the post-modern age because they represent many possibilities converged in one single device. They connect people, and at the same time, they are used more generally to organize life through textual, audio and video platforms…

LOCATIVE MEDIA IN BRAZIL
By André Lemos

Paradoxically, mobility media are localization media. It is interesting to note that locative media, which emphasize places, are furnished by mobility technologies that combine devices (laptops, smart phones, PDA and…

RISKY APPROXIMATIONS BETWEEN SITE-SPECIFIC AND LOCATIVE ARTS
By Lucas Bambozzi

I’d like to address the term ‘site’ as a field of semantic migrations, as migrations that occur due to cultural dislocations, linguistic operations, technological influences, poetic licenses or theoretical digressions.

“WE ARE AS WE MOVE ON”: MOTOBOYS ICONOMIC EVOLUTION IN SÃO PAULO
By Gilson Schwartz

Man is born free, and everywhere he is in chains. Many a man believes himself to be the master of others who is, no less than they, a slave. How did this change take place? I do not know. What can make it legitimate?

MULTIFACETED COMMUNICATION PROCESSES: WHICH THEORIES?
By Lucia Santaella

In the South American context, especially in Brazil, the main theories adopted by scholars of communication studies for decades have been the critical theories rooted in the Frankfurt School, ?

DISTRIBUTED SURVEILLANCE: VIDEO, MONITORING AND MOBILITY IN BRAZIL1
By Fernanda Bruno

Surveillance and mobility have historically maintained close relations: the demarcation of borders and territorial protections, the control of migration and the flow of people, goods, diseases etc. all represent ancient lineages of the intersections between these two processes (Salter & Zureik,…

MOBILE TECHNOLOGIES AS PRODUCTION PLATFORMS IN BRAZILIAN JOURNALISM
By Fernando Firmino da Silva

Mobile communication studies have expanded from within various disciplinary areas (in sociology, communication, cyberculture and cultural studies, for example), instigated by they way that practices arising from the emergence of new digital mobile technologies1 and wireless connection…

WIRELESS INTERNET ACCESS: THE SAME OLD PROBLEM AND THE CITY?S NEW AGENDA
By Fabio B. Josgrilberg

Over the last few years, the provision of wireless broadband internet access has become part of governmental agendas at all levels, and in many different locations (Middleton & Crow, 2008). This inclusion of yet another ‘new technology’ on the political agenda, however, belies…

CLOUDS OF OPEN CONNECTION: OPEN SPECTRUM, DIGITAL TELEVISION AND DIGITAL INCLUSION
By Sergio Amadeu da Silveira

Low income communities and individuals in Brazil are now grasping the importance of the Internet. The boom in blogs and user-friendly databases worldwide have greatly expanded hypertextual writing and the production of news and information across the web. Even television programs disseminate…

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A convergência midiática na visão de Henry Jenkins

O blog do GPC publicará, periodicamente, resenhas produzidas pelos integrantes do grupo. Inicio minha contribuição apresentando um texto sobre o livro “Cultura da Convergência”, de Henry Jenkins. O autor coordena o Programa de Estudos de Mídia Comparada do Massachusets Instituct of Tecnology (MIT) e assina diversos trabalhos que investigam a relação entre as midias e a cultura popular.

A Comunicação Social passou por uma considerável mudança nos últimos anos. Agora, a informação pode circular de forma intensa por  diferentes canais, sistemas midiáticos e administrativos. Cria-se um fluxo devedor da participação ativa dos consumidores, que elege a inteligência coletiva como nascente de seu potencial. Na atualidade, os conteúdos de novas e velhas mídias se tornam híbridos, reconfigurando a relação entre as tecnologias, indústria, mercados, gêneros e públicos. Ocorre um cruzamento entre  mídias alternativas e de massa que é assistido por múltiplos suportes, caracterizando a era da convergência midiática.

Em Cultura da Convergência, Henry Jenkins, propõe um conceito para definir as transformações tecnológicas, mercadológicas, culturais e sociais percebidas no cenário contemporâneo dos meios de comunicação. O autor analisa o fluxo de conteúdo que perpassa múltiplos suportes e mercados midiáticos, considerando o comportamento migratório percebido no público, que oscila entre diversos canais em busca de novas experiências de entretenimento. Jenkins fundamenta seu argumento em um tripé composto por três conceitos básicos: convergência midiática, inteligência coletiva e cultura participativa. Inteligência coletiva refere-se à nova forma de consumo, que tornou-se um processo conjunto e pode ser considerada uma nova fonte de poder. A expressão cultura participativa, por sua vez, serve para caracterizar o comportamento do consumidor midiático contemporâneo, cada vez mais distante da condição receptor passivo. São pessoas que interagem com um sistema complexo de regras, criado para ser dominado de forma coletiva. Por fim, a ideia de convergência proposta pelo autor não é pautada pelo determinismo tecnológico, mas fundamentada em uma perpectica culturalista. Neste sentido, ao longo das páginas, Jenkins vai articular três noções fundamentais de seu argmento: a convergência midiática como processo cultural e não tecnológico; o modelo da narrativa transmidiática como referencial da noção de convergência; o conceito de economia afetiva, que serve para pensar o comportamento de consumidores e produtores na contemporaneidade.

Logo na introdução, Jenkins aponta o telefone celular como exemplo representativo do período que estamos vivenciando, ressaltando o papel central que o aparelho desempenha em diversas situações, dentre elas as estratégias de marketing. Admite que estes dispositivos desprenderam-se da condição de mero telefone, tornando-se ferramenta importante para produção, envio e recebimento de vídeos, músicas, fotos e jogos eletrônicos. Jenkins ressalta a apropriação dos dispositivos móveis pelos participantes de experiências urbanas de entretenimento, como os jogos de realidade alternativa (ARGs). Por outro lado autor mostra-se preocupado em frisar que a proposta de convergência desenhada no livro não é tecnológica, não ocorre por meio de aparelhos multifuncionais, como muita gente acredita – engano que ele chama de a falácia da caixa preta. O conceito de convergência, proposto por Jenkins, refere-se ao paradigma configurado para representar a mente dos consumidores individuais e que pode ser percebido em suas interações sociais, nas formas de consumo e nas relações dos usuários com a tecnologia contemporânea.

Para desenvolver seu argumento, no primeiro capítulo Jenkins examina a comunidade criada em torno do reality show americano Survivor, à luz da noção de inteligência coletiva. O autor explica o fenômeno dos spoilers, grupo de consumidores ativos que reúnem seus conhecimentos para tentar antecipar fatos da série antes mesmo deles irem ao ar. O tipo de conhecimento adquirido pela audiência destes programas é impossível de ser reunido em uma só pessoa, deve ser guardado coletivamente. Para Jenkins, esta idéia se contrapõe ao paradigma do expert – um corpo limitado de informações que pode ser dominado por apenas um individuo. Na era da convergência midiática a inteligência coletiva é predominante.

O capítulo dois focaliza American Idol, outro fenômeno da chamada Reality TV, com base em um escopo mercadológico.  Jenkins constrói o conceito de economia afetiva, oferecendo insumos para auxiliar no entendimento destes programas, na compreensão do contexto em que a TV americana está operando e no comportamento do consumidor contemporâneo. A economia afetiva relaciona-se diretamente com a participação do público, procurando entender os fundamentos emocionais dos consumidores funcionando como catalizador das decisões de audiência e compra. Cita uma série de exemplos para explicar como os produtos midiáticos contemporâneos, dentre eles o famoso game American Army, podem afetar a mente do público e influenciar diretamente a tomada de decisões. Jenkins encerra este capítulo explorando algumas comunidades formadas em torno de marcas, destacando os poderes do que ele denomina voz coletiva.

No terceiro capítulo, Jenkins analisa franquia Matrix para explicar o conceito de narrativa transmidiática. Trata-se de um estilo de narrativa que exige maior envolvimento do público para entender um complexo universo ficcional. Nestes casos, para acompanhar a história em sua plenitude, é preciso interagir com o conteúdo espalhado em diversos tipos de canais e mídias. As narrativas transmidiáticas, segundo Jenkins, asseguram uma experiência mais rica em termos de entretenimento.

Ainda neste capítulo, Jenkins analisa fenômeno A Bruxa de Blair (EUA, 1998), destacando seu pioneirismo como experiência de narrativa transmidiática. Os alternate reality games (ARGs) ou jogos de realidade alternativa, no mesmo sentido, são citados como exemplos que refletem o paradigma da convergência midiática e a idéia da inteligência coletiva. Os ARGs são narrativas lúdicas que envolvem seus participantes em complexos ambientes de informação, forçando-os a lidar com série intensas de puzzles e estimulando a idéia de inteligência coletiva. Jenkins cita o jogo The Beast (Microsoft, 2001), ARG do filme Inteligência Artificial, para defender suas ideias de criação coletiva e domínio de conhecimento. Jenkins conclui que um ARG bem feito pode renovar as maneiras com as quais o público pode interagir em espaços reais e virtuais.

O capítulo quatro é dedicado ao entendimento da cultura participativa, através do exame da relação dos fãs com algumas franquias famosas, como a série Guerra nas Estrelas. Jenkins apresenta argumentos que  nos mostram  como o paradigma da convergência vem transformando a cultura de massa, analisando algumas peças produzidas pelos fãs de Star Wars, na web, como o curta Lucas in Love. Este filme, especialmente, reflete uma das formas que os fãs podem se apropriar dos elementos introduzidos por George Lucas, no cinema, e criar seus próprios produtos com base no conteúdo dos filmes.

Ainda com relação a Guerra nas Estrelas, outro exemplo representativo citado por Jenkins é o MMORPG (jogos eletrônicos para múltiplos usuários) Star Wars Galaxies e sua relação com a galáxia concebida por Lucas, na película Neste ambiente, os jogadores encontram insumos e ferramentas para interagir em um universo configurado à luz de dos filmes de Star Wars. Nos mesmo passo, o game consegue atualizar a discussão sobre comunidades virtuais e inteligência coletiva. Como resultado, as observações de Jenkins sobre Star Wars Galaxies nos mostram como os estúdios de George Lucas estabelecem uma relação mais aberta e cooperativa com a principal base de consumidores de Guerra nas Estrelas: os fãs.

O quinto capítulo segue a mesma a mesma linha de seu anterior. Contudo, o foco de Jenkins recai sobre a política da participação, percebida no conflito entre os fãs de Harry Potter, a Warner Bros – estúdio que comprou os direitos do  livro – e grupos conservadores cristãos. Influenciado por suas raízes no campo da educação, Henry Jenkins critica a argumentação pejorativa destes coletivos sobre os livros, os quais diversos professores consideram  um incentivo para os jovens leitores. Jenkins dispara contra os conservadores cristãos, que atacam a globalização e a lógica da convergência midiática com seus argumentos tradicionalistas, desconsiderando a transformação cultural vivenciada na sociedade contemporânea. Um dos alvos das críticas feitas pelos conservadores é o formato da narrativa transmidiática. Os grupos consideram perigosa a idéia de construir um universo ficcional e forçar os consumidores a investir mais tempo para dominar estes ambientes, do que enfrentar os problemas do mundo real.

O sexto e último capítulo do livro é dedicado à analise da cultura pública. Jenkins se debruça no conceito de convergência para ilustrar a disputa presidencial americana de 2004, mostrando caminhos para tornar a esfera política mais participativa. Neste caso, o autor sustenta a hipótese de que a cultura popular moldou a forma como o público processou e reagiu ao discurso político dos candidatos, proferido na ocasião destas eleições. Jenkins ressalta o papel decisivo de táticas percebidas em estratégias como o marketing viral e a força de movimentos botton-up, como as smarts mobs. O autor apresenta e discute o conteúdo produzido pelo público para atacar certos candidatos à presidência dos EUA em 2004, como montagens de imagens alternativas feitas sobre fotos de campanha.

Finalmente, Jenkins conclui seu livro ressaltando que a ideia da convergência midiática serve para traduzir as mudanças nas formas de relacionamento do público com os meios de comunicação. O autor observa que, por enquanto, estamos experimentando esta reconfiguração através da nossa relação com a cultura popular e o entretenimento comercial, atividade que fatalmente ajudará na compreensão das dinâmicas sociais e movimentos culturais da próxima década. Jenkins propõe que, no futuro, as habilidades adquiridas nestes processos apresentarão implicações consideráveis no modo como aprendemos, trabalhamos, participamos de procedimentos políticos, et cetera. O próximo passo a ser dado pelas pessoas engajadas em atividades como as descritas em  Cultura da Convergência é aplicar as habilidades desenvolvidas,a partir do contato com  entretenimento comercial, na solução de questões com maior amplitude social, política e mercadológica.

JENKINS, Henry, Cultura da Convergência. São Paulo :Aleph, 2008 (Edição em português)

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Midia Locativa em Salvador

Mídia Locativa em Salvador

Trabalhos apresentados por alunos da disciplina Mídia Locativa, disciplina optativa da Faculdade de Comunicação da UFBa, revelam diversas facetas da cidade do Salvador. Os projetos foram realizados por equipes como trabalho final para avaliação final da disciplina. Há além do projeto realizado no espaço urbano, uma monografia como uma espécie de memória técnica dos mesmos. Os alunos usaram alguns equipamentos e conceitos discutidos durante a disciplina. Os principais equipamentos utilizados foram: GPS Tracker, Celulares, Mapas Digitais, Câmeras fotográficas e de Vídeos. Os conceitos chaves foram: mídia locatuva, localização, lugar, espaço público, mobilidade, comunicação. Como pode ser visto abaixo, e no blog citado acima com mais detalhes, os projetos visam revelar aspectos artísticos, sociais, políticos e ambientais do espaço urbano da capital baiana.

Mais no Carnet de Notes.

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