Resenha da Reunião de 25/03/10


Burro Sem Rabo – Oi Futuro 2006 http://hapax.com.br/performances

A reunião iniciou com uma atualização do andamento dos projetos Wi-Fi Salvador e Câmeras de Vigilância. Além disso, todos foram convidados para a apresentação do integrante do GPC e bolsista do PETCOM Leonardo Pastor, no Sessões Científicas, de seu artigo de tema Rotina jornalística e mobilidade: potencialidades de transformação do habitus profissional jornalístico a partir das tecnologias móveis. O evento ocorrerá na próxima terça-feira, 30 de março, às 11 horas, na sala 14 da Facom.

O primeiro texto apresentado foi o projeto de mestrado Mídias Locativas e Música: Produção, Consumo e Apropriação de Novas Estéticas a partir de Dispositivos Móveis, do novo integrante do GPC Diego Brotas Corrêa Felisberto.  Este tem o intuito de analisar “[…]estudos e projetos que relacionam a apropriação das mídias locativas com a elaboração de distintas maneiras de produção e consumo (compartilhamento) de música, proporcionadas por um conjunto de tecnologias, com localidade”, além de examinar como há produção de sentido e apropriação do lugar nos projetos. De forma complementar, os vídeos dos projetos Sonic CityBurro Sem Rabo – A cidade tocada (também inclusos no projeto) foram mostrados ao grupo.

Levantou-se a necessidade de criação de uma classificação dos projetos (experiências) de mídia locativa relacionados à música e notou-se uma escassez de projetos brasileiros nesta área. Uma opção de classificação levando em consideração o papel do lugar na experiência foi sugerida pelo grupo, que teria possivelmente três tipos: um no qual o ambiente é sentido (informações do ambiente são captadas, como em Sonic City); o outro no qual o lugar transmitiria informação (a exemplo do projeto [murmur]); e, por último, uma experiência em que o lugar não exerça uma influência direta, como nos projetos de compartilhamento de música.

A discussão sobre o que é música e o que seria zumbido nestes projetos foi levantada. Os artistas dos projetos declaram que têm a intenção de ser música. Entretanto, André Lemos apontou que a música é como um produto final da experiência, que tem como objetivo maior o questionamento do uso e experiência do espaço público. Foi apontado também a necessidade de repensar os projetos sem taxá-los de novos, voltando-se para as mídias locativas analógicas. Afinal, o que há de novo são os dispositivos, que potencializam as experiências.

Questionou-se também o conceito de música móvel (GAYE; HOLMQUIST; BENHERDT; TANAKA, 2007), já que é da própria natureza ser móvel. O termo mais correto talvez fosse música em mobilidade. A ideia de que a música pode remeter a um lugar de uma experiência individual foi levantada, assim como a constatação de que ela é sempre sensível ao ambiente, uma vez que se propaga pelo ar, e só existe pelo contexto – inclusive o dispositivo (como o rádio, que em determinados lugares não sintoniza). André Lemos também lembrou que não há música sem objeto técnico, sem algum artefato, exceto quando utilizamos o nosso próprio corpo, ao cantarmos.

Mapas de crime: vigilância distribuída e participação na cibercultura, de Fernanda Bruno, foi o segundo texto discutido na reunião trazido por Leonardo Branco. O artigo “[…] identifica e problematiza as relações entre participação e vigilância na cibercultura a partir da noção de vigilância distribuída, focalizando os recentes mapas de crime disponibilizados na Internet” (BRUNO, 2009).  Este texto levantou diversos questionamentos sobre vigilância e mapas.

CITIX: http://citix.terra.com.br/index/

Uma das primeiras questões levantadas foi Qual a diferença entre Google Maps e o mapa comprado em uma banca de jornais? O grupo apontou a possibilidade de adicionar conteúdo e concluiu que, o que está em jogo nos projetos de mídias locativas de mapeamento não é a base geográfica utilizada, mas sim as informações contidas e anexadas nestes mapas.

Outra questão levantada foi a relação entre estrato social e produção de conteúdo nos mapas colaborativos. Quem participa destes projetos e faz o mapa conseguiria representar todos os estratos sociais ou só seria feito pela classe média, quem teria acesso? Então qual é discurso veiculado, principalmente relacionado à vigilância e áreas perigosas (nos mapas de violência)? Foi levantado de que em tese não há barreiras para a colaboração nos mapas e que também deve ser levado em conta que nunca houve foi possível construir mapas da maneira como é feito hoje. Além disso, o processo de mapeamento só era feito por instituições ou especialistas e hoje o cidadão comum pode criar estes mapas.

A diferença entre colaboração e participação também rendeu muitas discussões. Em resumo, o processo de colaboração exige a transformação do produto final, ou, segundo Bruno, “[…] a produção direta de informações por parte dos usuários […]”. Já na participação identifica-se um feedback, ou um comentário adicional ao produto. Como exemplo, um comentário em um blog seria participação e colocar um post seria colaboração. Vale ressaltar que nem tudo que é participativo é colaborativo e vice-versa.

O tema vigilância e seu conceito foram muito discutidos e considerados complexos, além do grupo reconhecer que não há conclusões concretas e há muito o que ser lido e discutido. André Lemos apontou que o termo vigilância distribuída leva ao enfraquecimento do conceito de vigilância, que, segundo ele, deve continuar forte. Além disso, há uma tendência de considerar tudo é vigilância e no texto, muitas vezes, vigilância é tida como sinônimo de monitoramento (ou sempre acompanha esta palavra). Para Bruno (2009), vigilância é “[…] a atividade de observação sistemática e focalizada de indivíduos, populações ou informações relativos a eles, tendo em vista extrair conhecimento e intervir sobre os mesmos, de modo a governar suas condutas ou subjetividades”.

Já segundo Lemos, existe controle, monitoramento e vigilância (todos distintos entre si), conceitos que podem ser conferidos neste artigo. De maneira resumida, o primeiro significa registro, o segundo, registro no tempo e o terceiro, o controle e o monitoramento com vistas a evitar algo ou com vistas a um fim específico. No caso da vigilância distribuída, há monitoramento e controle e pode ter ou não vigilância (e se tiver, esta é feita a posteriori). Ainda, Lemos acredita que toda vigilância é controle e monitoramento, mas nem todo controle e monitoramento é vigilância, discordando com o texto. Por outro lado, Lemos também identifica um problema etimológico já que, ao contrário do inglês e do francês, não há palavras que diferenciem o “estar atento” do “estar atento com vistas a evitar algo”.

O caso dos reality shows foi discutido, e concluiu-se que há uma observação sistemática e focada, na qual a pessoa sabe que está sendo observada. Além disso, há um gerenciamento de conduta (remetendo à definição de vigilância de Bruno), que é exemplificada pelo voto para o participante ficar ou sair. Ou seja, neste caso, há vigilância. Os radares da SET também foram considerados vigilância, inclusive por gerenciarem as condutas para manter a normalidade. E as câmeras de vigilância do campus podem ser consideradas de fato de vigilância se forem vistas pelo aspecto patrimonial

Por fim, a ideia de vigilância distribuída foi confrontada com a ideia de panóptico de Foucault, já que nesta somente alguns são vigiados e naquela, qualquer um interessa, caracterizando uma vigilância descentralizada e “mais democrática”. Porém, há um nível de centralização e hierarquia, a exemplo de quem detém os dados.